<?xml version="1.0" encoding="UTF-8"?><rss xmlns:dc="http://purl.org/dc/elements/1.1/" xmlns:content="http://purl.org/rss/1.0/modules/content/" xmlns:atom="http://www.w3.org/2005/Atom" version="2.0" xmlns:itunes="http://www.itunes.com/dtds/podcast-1.0.dtd" xmlns:googleplay="http://www.google.com/schemas/play-podcasts/1.0"><channel><title><![CDATA[notas e noias]]></title><description><![CDATA[Rabiscos de madrugada entre o último gole e o primeiro café.]]></description><link>https://notasenoias.substack.com</link><image><url>https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png</url><title>notas e noias</title><link>https://notasenoias.substack.com</link></image><generator>Substack</generator><lastBuildDate>Sun, 05 Jul 2026 19:21:30 GMT</lastBuildDate><atom:link href="https://notasenoias.substack.com/feed" rel="self" type="application/rss+xml"/><copyright><![CDATA[Pedro Bruno]]></copyright><language><![CDATA[pt]]></language><webMaster><![CDATA[notasenoias@substack.com]]></webMaster><itunes:owner><itunes:email><![CDATA[notasenoias@substack.com]]></itunes:email><itunes:name><![CDATA[Pedro Bruno]]></itunes:name></itunes:owner><itunes:author><![CDATA[Pedro Bruno]]></itunes:author><googleplay:owner><![CDATA[notasenoias@substack.com]]></googleplay:owner><googleplay:email><![CDATA[notasenoias@substack.com]]></googleplay:email><googleplay:author><![CDATA[Pedro Bruno]]></googleplay:author><itunes:block><![CDATA[Yes]]></itunes:block><item><title><![CDATA[uma quase ode a hipocrisia]]></title><description><![CDATA[notas e noias #30]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/uma-quase-ode-a-hipocrisia</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/uma-quase-ode-a-hipocrisia</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Sat, 14 Feb 2026 01:01:59 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Sabe o que me mata?</p><p>N&#227;o &#233; a mentira. A mentira &#233; limpa, &#233; direta, &#233; um tiro na cara. Voc&#234; cai e sabe por que caiu. A mentira tem dignidade.</p><p>O que me mata &#233; a hipocrisia. Esse v&#237;cio de merda que transforma gente em um papel rasgado. Voc&#234; convive anos. Anos. Toma cerveja, divide o p&#227;o, ouve as confiss&#245;es, v&#234; a pessoa nua emocionalmente. Acha que conhece. Acha que tem um mapa da alma do sujeito.</p><p>E ent&#227;o, um dia, ela abre a boca.</p><p>E o que sai n&#227;o &#233; ela. &#201; um personagem. Um papel&#227;o pintado de verdades que ela mesmo n&#227;o acredita. As palavras se enrolam na pr&#243;pria l&#237;ngua, formam um n&#243; cego, e ela continua falando, falando, como se o volume pudesse esconder o vazio.</p><p>Voc&#234; olha nos olhos dela. Os mesmos olhos que te olharam na mesa de bar, na cama, em algum momento d&#237;ficil da vida. E n&#227;o v&#234; nada. S&#243; o reflexo do seu pr&#243;prio espanto.</p><p>Como pode?</p><p>Como pode algu&#233;m beber da mesma fonte durante tanto tempo e um dia cuspir veneno e chamar de &#225;gua?</p><p>A hipocrisia n&#227;o &#233; um ato. &#201; um estado. A pessoa n&#227;o mente para voc&#234;. Ela mente para si mesma primeiro. Ensaia tanto o papel que um dia esquece que est&#225; num palco. Acha que &#233; real. Acha que a plateia &#233; idiota.</p><p>E o pior: a gente quer acreditar. A gente d&#225; chances. A gente pensa &#8220;foi um momento, essa pessoa n&#227;o &#233; assim&#8221;. A gente reescreve a hist&#243;ria de outro para caber no nosso conforto.</p><p>At&#233; que n&#227;o d&#225; mais.</p><p>At&#233; que a contradi&#231;&#227;o &#233; t&#227;o escancarada, t&#227;o rid&#237;cula, que voc&#234; v&#234; o sujeito caindo por cima da pr&#243;pria l&#237;ngua. Se enrolando como um gato num novelo de merda. E o pior,  ainda tenta se levantar, todo pomposo, todo cheio de raz&#245;es, enquanto os cacos da pr&#243;pria credibilidade est&#227;o espalhados no ch&#227;o.</p><p>Conhecer algu&#233;m por muito tempo n&#227;o &#233; garantia de nada. &#201; s&#243; mais tempo pra hipocrisia se aperfei&#231;oar. &#201; mais ensaio para o teatro.</p><p>O estranho te engana uma vez. Uma pessoa querida de longa data te engana durante anos, com capricho, com dedica&#231;&#227;o, com um carinho que s&#243; o tempo permite aperfei&#231;oar.</p><p>E voc&#234; fica ali, feito ot&#225;rio, lembrando dos momentos. Das risadas. Das promessas. E tudo aquilo come&#231;a a feder. Azedar. Mofa na mem&#243;ria igual comida esquecida no fundo da geladeira.</p><p>O pior da hipocrisia n&#227;o &#233; a m&#225;scara. &#201; o momento em que a m&#225;scara cai e, por baixo, n&#227;o tem nada. Nem um rosto. S&#243; o vazio e o eco da pr&#243;pria voz repetindo mentiras que j&#225; n&#227;o lembram mais a verdade.</p><p>Voc&#234; conhece algu&#233;m por tanto tempo. E no fim descobre que conheceu s&#243; um esbo&#231;o. Um rascunho que o filho da puta foi aperfei&#231;oando at&#233; virar uma obra-prima da falsidade.</p><p>&#201; por isso que eu escrevo. Porque no papel, pelo menos, a verdade n&#227;o tem tempo para se corromper. O que eu ponho aqui hoje, amanh&#227; ainda &#233; verdade. Pode ser feia, pode ser suja, pode ser dolorosa. Mas &#233; minha. E n&#227;o tem hipocrisia que mude uma linha.</p><p>O resto? O resto &#233; gente se enrolando na pr&#243;pria l&#237;ngua, caindo de boca no ch&#227;o, e ainda achando que o tombo foi passeio.</p><p>Eu t&#244; aqui. Vendo. Anotando. Esperando.</p><p>A hipocrisia cansa. Mas a caneta, n&#227;o. A caneta &#233; a &#250;nica coisa que nunca me traiu. Porque ela n&#227;o tem l&#237;ngua. S&#243; tem ponta. E ponta fura. Fura papel, fura a alma, fura a casca podre que o povo insiste em chamar de car&#225;ter.</p><p>Vamos escrevendo. Anotando os tombos. Os discursos vazios. Os amigos que viram estranhos sem precisar mudar de endere&#231;o.</p><p>Venceremos? Talvez. Mas vencendo sabendo que, no meio do caminho, a gente vai ter que pisar em muita l&#237;ngua enrolada e muita m&#225;scara ca&#237;da.</p><p>E t&#225; tudo bem. Tudo bem. Porque a verdade, por mais feia que seja, &#233; a &#250;nica coisa que n&#227;o precisa de ensaio.</p><p>Ela simplesmente &#233;. E te fode gostoso.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[é aquela história, né...]]></title><description><![CDATA[notas e noias #28]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/e-aquela-historia-ne</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/e-aquela-historia-ne</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Mon, 02 Feb 2026 20:06:48 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Um dos contos perdidos na nuvem que nunca postei.</p><p>Sou p&#233;ssimo pra t&#237;tulos, ent&#227;o s&#243; chamei de &#8220;puts, que droga hein?&#8221;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Nos fones de ouvido, um sample, o baixo gordo e a voz tranquila de Plug Two anunciavam: &#8220;Mirror, mirror on the wall, tell me mirror, what is wrong?&#8221; Era a pergunta de milh&#227;o de reais, ou melhor, de um sal&#225;rio de jornalista econ&#244;mico de terceira linha.</p><p>A tela do computador piscava, exigente. O gr&#225;fico parecia o tremor de um viciado em abstin&#234;ncia. Ele digitou, com os dedos pesados: &#8220;A perspectiva para os juros futuros, dada a conjuntura fiscal&#8230;&#8221; Mentira. A &#250;nica perspectiva que ele tinha era a da garrafa de cacha&#231;a no fundo da gaveta, ao lado de uma medalha de pl&#225;stico dourado. &#8220;Me, Myself &amp; I&#8221; seguia no seu ouvido, um hino ir&#244;nico de autossufici&#234;ncia enquanto ele vendia sua alma, par&#225;grafo por par&#225;grafo, para o deus Mercado, que tinha a face impass&#237;vel do seu editor chefe, o Senhor Guedes.</p><p>Guedes n&#227;o era um homem, era um fato. Um fato que cheirava a bafo de caf&#233; e ambi&#231;&#227;o barata. Ele surgiu ao lado da mesa sem fazer ru&#237;do, como um mau pressentimento, e deixou cair uma folha de papel A4 sobre o teclado. &#8220;Infla&#231;&#227;o do m&#234;s. Preciso de sete linhas para o caderno de economia. Para ontem.&#8221;</p><p>A folha cobriu a pequena foto emoldurada que Jorge mantinha ao lado do monitor. Uma foto de 1987. Um garoto magricela, com um sorriso que mostrava o espa&#231;o de um dente perdido, erguendo um trof&#233;u de pingue-pongue maior que sua cabe&#231;a. O trof&#233;u era de pl&#225;stico, o menino era de carne e osso, e a felicidade ali era um animal real, palp&#225;vel, que respirava e suava.</p><p>Guedes foi embora. Uma m&#250;sica chegou na parte: &#8220;I&#8217;m gonna pick up the pieces, get up and face the world&#8230;&#8221; Jorge ent&#227;o tirou um fone. O ru&#237;do da reda&#231;&#227;o o atingiu como uma onda suja: o teclar fren&#233;tico, o telefone tocando, o murm&#250;rio das conversas in&#250;teis. Era o som do mundo real, o mundo das planilhas, das previs&#245;es erradas, das rela&#231;&#245;es humanas que eram um jogo de xadrez onde ele sempre viajava em dois lances.</p><p>Ele pensou em Maria. Maria, que tinha ido embora levando o abajur e deixando a explica&#231;&#227;o: &#8220;Voc&#234; n&#227;o est&#225; presente, Jorge. Voc&#234; est&#225; sempre anotando mentalmente a vida, como se fosse um fato a ser reportado. N&#227;o se vive um fato.&#8221; Ele n&#227;o entendeu. Como se sentir? Onde estava o manual? Onde estava o placar?</p><p>Seu ritual de fuga era pat&#233;tico. &#192;s ter&#231;as e quintas, fingia que ia buscar caf&#233; no outro corredor e desviava para o departamento de Esportes. L&#225;, o ar era diferente. Mais aberto. Havia um cheiro residual de energia, de adrenalina seca. Ele passava os dedos nas capas das pastas, como um devoto tocando um relic&#225;rio. Uma vez, ousou sentar numa cadeira vazia, diante de um computador desligado, e imaginou a manchete: &#8220;VELHA RAPOSA VENCE COM EXPERI&#202;NCIA&#8221;. Era sobre um zagueiro de 40 anos. Era sobre ele. Nunca escreveu.</p><p>A not&#237;cia chegou por um alerta in&#250;til no seu celular, no fim de uma tarde particularmente cinzenta: &#8220;Inscri&#231;&#245;es abertas para o Torneio de T&#234;nis de Mesa dos Veteranos &#8211; Categoria Livre at&#233; 50 anos&#8221;. A tela do celular brilhou naquele cub&#237;culo. O cora&#231;&#227;o, aquele m&#250;sculo atrofiado que ele julgava apenas um &#243;rg&#227;o para bombear sangue cansado, deu uma guinada est&#250;pida e violenta.</p><p>&#8220;I never let a sucker play me, to be a true player you must live it&#8230;&#8221; sussurravam os fones, agora no colo.</p><p>Ele olhou para o gr&#225;fico da infla&#231;&#227;o, linhas tortas ditando o destino de milh&#245;es de pobres coitados. Olhou para a foto do garoto com o trof&#233;u. Olhou para as m&#227;os. As m&#227;os que digitavam obitu&#225;rios econ&#244;micos. Eram as mesmas m&#227;os que, um dia, seguraram uma raquete com uma for&#231;a que vinha n&#227;o dos m&#250;sculos, mas da pura, ing&#234;nua, deliciosa vontade de vencer.</p><p>A decis&#227;o n&#227;o foi um clar&#227;o. Foi um afundamento. Um foda-se mudo que come&#231;ou nas entranhas e subiu, como um g&#225;s t&#243;xico e libertador. Ele n&#227;o clicou no link das inscri&#231;&#245;es. N&#227;o era hora ainda.</p><p>Em vez disso, abriu um novo documento em branco. O t&#237;tulo do arquivo piscou, um campo vazio a ser preenchido. Ele tirou os fones de ouvido. O sil&#234;ncio da sua pequena ilha de desespero era assustador. Pela primeira vez, ele n&#227;o queria a m&#250;sica dos outros. Queria ouvir o ru&#237;do de dentro, por mais feio que fosse.</p><p>Os dedos pairaram sobre as teclas. N&#227;o iam escrever sobre futuros. Iam escrever sobre um passado. A primeira linha veio, como se tivesse sido arrancada:</p><p>&#8220;A derrota tem um cheiro que a vit&#243;ria nunca conhecer&#225;. &#201; o cheiro de l&#227; suada, de borracha queimada e da saliva seca no canto da boca quando voc&#234; percebe que o seu melhor n&#227;o foi, nem de longe, o suficiente&#8230;&#8221;</p><p>Era o come&#231;o. Do que, ele n&#227;o sabia. De uma cr&#244;nica? De uma despedida? De uma carta de suic&#237;dio? De um grito abafado pelo barulho do mundo?</p><p>As mat&#233;rias financeiras tornaram-se um gatilho ps&#237;quico. Cada &#8220;alta do d&#243;lar&#8221;, cada &#8220;expectativa de ajuste fiscal&#8221; era uma chave que abria n&#227;o um entendimento do mercado, mas um cofre de mem&#243;rias podres.</p><p><strong>Manchete:</strong> BC sinaliza aperto monet&#225;rio diante da press&#227;o inflacion&#225;ria.<br><strong>A Mem&#243;ria:</strong> O aperto no peito quando Maria anunciou, sem rodeios, que estava saindo. A infla&#231;&#227;o do seu pr&#243;prio vazio, um vazio que come&#231;ou a crescer descontroladamente a partir daquele momento.</p><p><strong>Manchete:</strong> &#205;ndice de confian&#231;a do consumidor atinge menor patamar em uma d&#233;cada.<br><strong>A Mem&#243;ria:</strong> A confian&#231;a dele, aquele fr&#225;gil constructo baseado em regras e an&#225;lises, desabando no dia em que percebeu que n&#227;o tinha um manual para consertar o amor. O manual n&#227;o existia. Era tudo feeling, e feeling era um idioma que ele n&#227;o falava.</p><p>Ele come&#231;ou a escrever a cr&#244;nica do torneio em surtos, entre uma pauta e outra. O documento aberto no computador era sua v&#225;lvula de escape. Enquanto digitava &#8220;a volatilidade dos mercados emergentes...&#8221;, sua mente escrevia &#8220;o suor era emergente, bruto, n&#227;o regulado por nenhum banco central...&#8221;</p><p>A noite era pior. O apartamento silencioso ecoava. A cerveja, companheira mais leal que Maria, n&#227;o apagava os fantasmas, apenas os deixava mais falantes. Em um acesso de fraqueza, ele foi ao perfil dela nas redes sociais. Um erro cl&#225;ssico. Um tiro no p&#233; emocional. Havia uma foto. Maria em uma praia, com outra pessoa. Um homem de sorriso f&#225;cil, que provavelmente n&#227;o sabia a diferen&#231;a entre uma baboseira de juros e uma batata. O p&#233;ssimo de tudo? Ela parecia leve. Despreocupada. O vestido era azul, n&#227;o amarelo. O cora&#231;&#227;o de Jorge, aquele &#243;rg&#227;o economista, fez um c&#225;lculo r&#225;pido: perda total do investimento emocional.</p><p>Foi ent&#227;o que a infec&#231;&#227;o generalizou.</p><p>Ele estava na reda&#231;&#227;o, escrevendo uma nota sobre o d&#233;ficit prim&#225;rio. A tela come&#231;ou a borrar. N&#227;o eram l&#225;grimas, era algo pior: era a fus&#227;o total dos dois mundos. As palavras da mat&#233;ria se misturavam com as da cr&#244;nica. Sua mente digitava:</p><p>&#8220;O d&#233;ficit prim&#225;rio do cora&#231;&#227;o &#233; estrutural. N&#227;o h&#225; super&#225;vit que corrija a conta de um amor que foi embora sem deixar nota fiscal. As despesas continuam: o aluguel da mem&#243;ria, a conta de luz que ilumina um c&#244;modo vazio, a manuten&#231;&#227;o do fantasma no sof&#225;. A receita &#233; zero. O governo do eu declara calamidade.&#8221;</p><p>Ele parou. Respirou fundo. Olhou em volta. Ningu&#233;m notava. Eram todos zumbis digitando seus pr&#243;prios obitu&#225;rios. O Senhor Guedes passou, lan&#231;ando um olhar que era uma planilha de avalia&#231;&#227;o de desempenho.</p><p>E Jorge percebeu. A grande verdade, a &#250;nica manchete que importava, n&#227;o estava no mercado, nem no esporte, nem mesmo em Maria. Estava na rendi&#231;&#227;o. Na aceita&#231;&#227;o total da podrid&#227;o. Ele n&#227;o era um jornalista econ&#244;mico frustrado ou um ex atleta. Era um cad&#225;ver em decomposi&#231;&#227;o que ainda se mexia, e sua cr&#244;nica seria o relato do pr&#243;prio apodrecimento.</p><p>O cl&#237;max n&#227;o seria o torneio. O cl&#237;max era agora. O momento em que ele decidiu parar de lutar contra a infec&#231;&#227;o e deixar se transformar por ela.</p><p>Com uma calma funer&#225;ria, ele salvou o arquivo da mat&#233;ria do d&#233;ficit prim&#225;rio. Abriu um novo. O t&#237;tulo: <strong>&#8220;MANUAL DO PERDEDOR (Com Observa&#231;&#245;es de Campo)&#8221;</strong>.</p><p>Os dedos voaram, agora am&#250;sica. O barulho era s&#243; o teclado e o ranger dos seus dentes.</p><p>&#8220;Cap&#237;tulo Um: A Derrota como Alicerce. Observa&#231;&#227;o: note como o cheiro do suor de um adulto &#233; diferente. Tem notas de desespero e caf&#233; barato. Diferente do suor infantil, que cheira a futuro. O futuro acabou. Fato.&#8221;</p><p>&#8220;Cap&#237;tulo Dois: A Mulher que Partiu. Observa&#231;&#227;o: o vestido era amarelo. Esse dado n&#227;o &#233; negoci&#225;vel. &#201; o &#250;nico fato incontest&#225;vel de todo o caso. O resto &#233; opini&#227;o, infla&#231;&#227;o emocional e gr&#225;ficos de linha que n&#227;o levam a lugar nenhum.&#8221;</p><p>&#8220;Cap&#237;tulo Tr&#234;s: O Trabalho que Odeia. Observa&#231;&#227;o: escrever sobre economia &#233; como fazer aut&#243;psia em cifr&#245;es. Eles n&#227;o sangram, apenas revelam um vazio por dentro. Um vazio muito caro.&#8221;</p><p>Ele escreveu por uma hora. Escreveu at&#233; os dedos doerem e a tela ficar cheia de verdades s&#243;rdidas e bonitas. Era a sua ren&#250;ncia. A sua declara&#231;&#227;o de fal&#234;ncia pessoal.</p><p>Salvou o arquivo. Impediu que o sono autom&#225;tico da tela o apagasse. Levantou-se. Suas pernas tremiam, mas n&#227;o de fraqueza. Era o tremor de quem acabou de explodir uma represa por dentro.</p><p>CATARSE.</p><p>Caminhou at&#233; a mesa do Senhor Guedes, que olhou para cima, impaciente.<br>&#8212; E a mat&#233;ria do d&#233;ficit, Jorge? Est&#225; atrasada.<br>Jorge respirou fundo. O ar da reda&#231;&#227;o nunca cheirou t&#227;o a possibilidade e esperan&#231;a.<br>&#8212; Guedes &#8212; a voz saiu mais firme do que ele esperava. &#8212; Voc&#234; pode enfiar o d&#233;ficit bem no meio do seu cu. E enfiar o emprego junto.<br>&#8212; O que? Voc&#234; est&#225; louco?!<br>&#8212; Provavelmente. &#8212; Jorge deu meia-volta. &#8212; Mas estou louco a meu favor, pela primeira vez. Vou cobrir um torneio. Uma mat&#233;ria real.</p><p>N&#227;o esperou resposta. Caminhou de volta para sua mesa, pegou o blus&#227;o velho, a raquete que tinha comprado online numa noite de ins&#244;nia, e a foto do garoto com o trof&#233;u. Deixou o crach&#225; em cima do teclado.</p><p>O ar da rua n&#227;o era libertador. Era gelado, &#250;mido, e cheirava a fuma&#231;a de escapamento. Jorge parou sob a luz amarelada de um poste, a raquete dentro do saco de pl&#225;stico parecendo um trof&#233;u de uma piada de mau gosto. O cora&#231;&#227;o, que h&#225; minutos batia com uma f&#250;ria &#233;pica, agora fazia um ru&#237;do baixo e irregular, como um motor a diesel falhando.</p><p>O que ele estava fazendo?<br>Desistindo de um emprego de merda para jogar pingue-pongue com velhos.<br>Com que dinheiro?<br>Nenhum.<br>Onde ficaria?<br>N&#227;o sabia.</p><p>A coragem &#233; um combust&#237;vel de queima r&#225;pida. A chama que consumira a imagem do Senhor Guedes, a sombra de Maria, a raiva contra as planilhas, agora se apagou, deixando apenas o cheiro de gasolina e as cinzas do p&#226;nico.</p><p>Ele olhou para tr&#225;s, para o pr&#233;dio baixo e sujo do jornal. Uma luz ainda acesa aqui e ali. Um zumbi como ele, digitando o obitu&#225;rio da noite. L&#225; dentro, havia um inferno conhecido. Um inferno com plano de sa&#250;de, d&#233;cimo terceiro e a possibilidade de um caf&#233; ruim &#224;s tr&#234;s da tarde. Um inferno que pagava o aluguel do seu apartamento vazio.</p><p>O apartamento vazio.<br>A ideia de voltar para l&#225;, depois de ter jogado tudo para o alto, era insuport&#225;vel. Seria voltar derrotado duas vezes: pela vida e por sua pr&#243;pria covardia. Mas a ideia de n&#227;o voltar, de ficar na rua com uma raquete e uma cr&#244;nica inacabada no pendrive&#8230; era pat&#233;tica.</p><p>A m&#250;sica n&#227;o tocava mais no seu ouvido. S&#243; o zumbido do tr&#226;nsito e o sussurro do medo.</p><p>Ele deu meia-volta.</p><p>Os passos de volta para o pr&#233;dio foram mais lentos do que os de sa&#237;da. Cada um pesava uma tonelada. A porta dos fundos ainda estava destravada. O corredor estava iluminado, hostil. Ele entrou, a cabe&#231;a baixa.</p><p>Ningu&#233;m notou. O zumbi que substituiria Guedes ainda n&#227;o tinha assumido o posto. Seu crach&#225; ainda estava sobre o teclado, ao lado da foto do garoto. Ele pegou o crach&#225;, pendurou-o novamente no pesco&#231;o. Guardou a foto na gaveta, por cima da garrafa de 51. Empurrou o saco com a raquete para o fundo do arm&#225;rio de baixo, onde guardavam pap&#233;is para reciclagem.</p><p>Sentou-se. A tela do computador ainda mostrava o documento <strong>&#8220;MANUAL DO PERDEDOR (Com Observa&#231;&#245;es de Campo)&#8221;</strong>. Ele olhou para ele por um longo minuto. Ent&#227;o, fechou o arquivo sem salvar.</p><p>O aviso surgiu: &#8220;Salvar altera&#231;&#245;es em &#8216;Manual do Perdedor&#8217;?&#8221;</p><p>Ele moveu o cursor. Clicou em <strong>&#8220;</strong>N&#227;o&#8221;.</p><p>O documento em branco reapareceu. O vazio primordial. A p&#225;gina que sempre o aguardava, n&#227;o importa quantas bravatas ele fizesse.</p><p>O telefone tocou. Era o Senhor Guedes, de casa.<br>&#8212; Jorge? Onde est&#225; aquela mat&#233;ria? A gr&#225;fica n&#227;o vai esperar o dia todo.<br>&#8212; Est&#225; quase pronta, senhor. Tive um&#8230; problema t&#233;cnico. Envio em dez minutos.<br>&#8212; Veja se se apressa. E traga o relat&#243;rio de produtividade da semana na minha mesa amanh&#227;, cedo.<br>&#8212; Sim, senhor.</p><p>A voz saiu plana, obediente, morta. Era a sua pr&#243;pria voz de sempre.</p><p>A noite seguiu. Ele reescreveu a mat&#233;ria do d&#233;ficit prim&#225;rio. As palavras eram as mesmas de sempre, inertes, profissionais, vazias. Ele as digitou com a efici&#234;ncia de uma m&#225;quina com mau funcionamento cr&#244;nico.</p><p>Ao final, enviou o arquivo. A reda&#231;&#227;o estava quase vazia. O zumbido dos computadores era o &#250;nico som.</p><p>Ele abriu um novo documento. Olhou para a tela branca. O vazio entre os fatos. O lugar onde Maria vivia. O lugar onde o garoto do trof&#233;u tinha morrido.</p><p>Seus dedos se moveram, uma &#250;ltima vez, n&#227;o por coragem ou arte, mas por um espasmo terminal. Escreveu uma &#250;nica linha:</p><p>&#8220;&#192;s vezes, a &#250;nica coisa corajosa que voc&#234; pode fazer &#233; continuar sendo um covarde.&#8221;</p><p>Salvou o arquivo com um nome qualquer: &#8220;RASCUNHO1&#8221;. Fechou o computador.</p><p>Levantou-se, pegou o blus&#227;o. Caminhou at&#233; o arm&#225;rio, e o abriu. O saco pl&#225;stico com a raquete estava l&#225;, meio escondido. Ele o deixou onde estava.</p><p>Saiu do pr&#233;dio, desta vez pela porta da frente. O ar da noite era o mesmo. Nada tinha mudado. Nem mesmo dentro dele. Apenas uma ferida que ele havia cutucado e agora voltaria a cicatrizar mal, formando uma crosta mais grossa e mais feia.</p><p>O apartamento o esperava, vazio e silencioso. Ele entrou, deixou as chaves no pires. N&#227;o ligou a luz. Foi at&#233; a janela e olhou a cidade iluminada, um gr&#225;fico de linhas de luz sem sentido.</p><p>N&#227;o havia cr&#244;nica. N&#227;o havia torneio. N&#227;o havia reden&#231;&#227;o. Havia apenas o dia seguinte, e a mat&#233;ria sobre os juros futuros que ele escreveria nele.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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TA A&#205; UM COMPILADO DE VIAGENS NA BEIRA DO LAGO.</p><div class="captioned-image-container"><figure><a class="image-link image2 is-viewable-img" target="_blank" href="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg" data-component-name="Image2ToDOM"><div class="image2-inset"><picture><source type="image/webp" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_424,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_848,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_1272,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_1456,c_limit,f_webp,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 1456w" sizes="100vw"><img src="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg" width="1200" height="1600" data-attrs="{&quot;src&quot;:&quot;https://substack-post-media.s3.amazonaws.com/public/images/50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg&quot;,&quot;srcNoWatermark&quot;:null,&quot;fullscreen&quot;:null,&quot;imageSize&quot;:null,&quot;height&quot;:1600,&quot;width&quot;:1200,&quot;resizeWidth&quot;:null,&quot;bytes&quot;:255511,&quot;alt&quot;:null,&quot;title&quot;:null,&quot;type&quot;:&quot;image/jpeg&quot;,&quot;href&quot;:null,&quot;belowTheFold&quot;:false,&quot;topImage&quot;:true,&quot;internalRedirect&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/i/184470351?img=https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg&quot;,&quot;isProcessing&quot;:false,&quot;align&quot;:null,&quot;offset&quot;:false}" class="sizing-normal" alt="" srcset="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_424,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 424w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_848,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 848w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_1272,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 1272w, https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!Bk_Q!,w_1456,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F50277831-9ec2-41de-a9f9-9a73a6a8fe43_1200x1600.jpeg 1456w" sizes="100vw" fetchpriority="high"></picture><div class="image-link-expand"><div class="pencraft pc-display-flex pc-gap-8 pc-reset"><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container restack-image"><svg role="img" width="20" height="20" viewBox="0 0 20 20" fill="none" stroke-width="1.5" stroke="var(--color-fg-primary)" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" xmlns="http://www.w3.org/2000/svg"><g><title></title><path d="M2.53001 7.81595C3.49179 4.73911 6.43281 2.5 9.91173 2.5C13.1684 2.5 15.9537 4.46214 17.0852 7.23684L17.6179 8.67647M17.6179 8.67647L18.5002 4.26471M17.6179 8.67647L13.6473 6.91176M17.4995 12.1841C16.5378 15.2609 13.5967 17.5 10.1178 17.5C6.86118 17.5 4.07589 15.5379 2.94432 12.7632L2.41165 11.3235M2.41165 11.3235L1.5293 15.7353M2.41165 11.3235L6.38224 13.0882"></path></g></svg></button><button tabindex="0" type="button" class="pencraft pc-reset pencraft icon-container view-image"><svg xmlns="http://www.w3.org/2000/svg" width="20" height="20" viewBox="0 0 24 24" fill="none" stroke="currentColor" stroke-width="2" stroke-linecap="round" stroke-linejoin="round" class="lucide lucide-maximize2 lucide-maximize-2"><polyline points="15 3 21 3 21 9"></polyline><polyline points="9 21 3 21 3 15"></polyline><line x1="21" x2="14" y1="3" y2="10"></line><line x1="3" x2="10" y1="21" y2="14"></line></svg></button></div></div></div></a></figure></div><p><strong> O PEIXE QUE ANSIAVA PELO ANZOL</strong></p><p>No fundo do Lago, Rog&#233;rio era uma lenda entre os lambaris. N&#227;o pela cor, prateado comum, nem pelo tamanho. Mas por sua estranha e obstinada voca&#231;&#227;o: Rog&#233;rio queria ser pescado.</p><p>Enquanto os outros peixes desviavam de anz&#243;is como de dem&#244;nios aqu&#225;ticos, Rog&#233;rio nadava em c&#237;rculos em volta das iscas. Observava as varadas de bambu como se fossem pontes erguidas para um destino maior. O momento m&#225;gico, para ele, era quando o ferro frio perfurava seu l&#225;bio superior e o arrancava para um universo de ar, luz e gritos humanos. A dor era um ingresso.</p><p>&#8212; Voc&#234; &#233; maluco, Rog&#233;rio &#8212; sussurravam as til&#225;pias &#8212; L&#225; em cima s&#243; h&#225; morte e panela.</p><p>Mas Rog&#233;rio n&#227;o temia a morte. Temia a insignific&#226;ncia. Preferia ser lembrado como &#8220;aquele que lutou&#8221; a ser esquecido como &#8220;mais um na cardume&#8221;. Cada pescador que o fisgava era um cap&#237;tulo de uma hist&#243;ria maior. Ele colecionava mem&#243;rias de m&#227;os que o seguravam: &#225;speras de trabalhador, macias de crian&#231;a, tr&#234;mulas de velho. Guardava os sons: &#8220;Nossa, &#233; grande!&#8221; ou &#8220;Pode soltar, &#233; pequeno&#8221;.</p><p>At&#233; que veio o inverno. O pesqueiro faliu. Os bancos de madeira apodreceram. As varas enferrujaram. Os humanos sumiram.</p><p>Rog&#233;rio, pela primeira vez, sentiu um vazio mais profundo que qualquer anzol. Nadou at&#233; a superf&#237;cie e viu apenas sil&#234;ncio. Nenhuma sombra de chap&#233;u de sol, nenhum brilho de linha de n&#225;ilon. O mundo exterior havia desligado sua luz.</p><p>Os anos passaram. O lago envelheceu. Rog&#233;rio tamb&#233;m. Suas escamas perderam o brilho, mas seu olho (o direito, perfurado nove vezes) ainda guardava o reflexo de cada rosto que o havia levantado para o ar.</p><p>Um dia, um velho chegou &#224; margem seca com um neto pequeno. Sentaram numa pedra onde antes havia um banco. O velho apontou para o lago:</p><p>&#8212; Aqui, eu pesquei um peixe incr&#237;vel. Saltava, lutava, parecia que queria ser pego. O mesmo peixe, sempre. A gente reconhecia pelo jeito.</p><p>&#8212; O que aconteceu com ele, v&#244;?</p><p>&#8212; O pesqueiro fechou. Queria levar para casa, mas sempre soltava. No final, acho que a gente pescava um ao outro.</p><p>Rog&#233;rio, escondido sob uma folha de vit&#243;ria-r&#233;gia, ouviu. E finalmente entendeu: ele n&#227;o era um peixe. Era uma hist&#243;ria. E hist&#243;rias n&#227;o morrem em frigor&#237;ficos, moram na voz dos netos, na mem&#243;ria dos velhos, no mito que sobrevive &#224; &#225;gua.</p><p>Naquela noite, pela primeira vez, n&#227;o sonhou com anz&#243;is. Sonhou com vozes humanas ecoando seu nome lend&#225;rio atrav&#233;s do tempo. E isso, percebeu, era uma felicidade mais profunda que qualquer ferro perfurante.</p><p>O pesqueiro fechou. Os humanos foram embora. Mas as hist&#243;rias de varinha e anzol ficaram. E Rog&#233;rio, o peixe que desejava ser lenda, finalmente havia sido fisgado para a eternidade.</p><div><hr></div><p><strong>AVISOS NA ESPINHA </strong></p><p>A ansiedade chegou antes da not&#237;cia. Sempre chega. Veio de madrugada, com aquele aperto no peito que parece um punho de fantasma. Eu no escuro do s&#237;tio, suando frio, contando respira&#231;&#245;es como se fossem os segundos finais de algo. N&#227;o sabia o qu&#234;. S&#243; sabia que algo estava errado em algum lugar do mapa da minha vida.</p><p>Hoje de manh&#227;, o telefone tocou.</p><p>Meu tio, um homem que trocou a dignidade por garrafas de cacha&#231;a, est&#225; internado. O cora&#231;&#227;o, depois de anos sendo bombardeado por &#225;lcool e &#243;dio, decidiu fazer greve. E a mulher dele, aquela que minha av&#243; chamaria de &#8220;uma verdadeira vagabunda&#8221; com do&#231;ura que s&#243; ela tinha, perdeu a m&#227;e. Na mesma noite. Na mesma casa onde minha av&#243; morreu, e onde agora s&#243; habitam fantasmas de segunda categoria.</p><p>Eu ri.</p><p>Ri baixo, com culpa, mas ri. Porque &#233; ir&#244;nico demais. Gente ruim recebendo seu pagamento em moeda de dor. A justi&#231;a po&#233;tica que a vida &#224;s vezes entrega, mesmo atrasada.</p><p>Mas ent&#227;o parei.</p><p>Porque lembrei da minha av&#243;. Dona de casa, cat&#243;lica n&#227;o praticante, que acreditava que os mortos avisam quando a merda est&#225; prestes a bater no ventilador. </p><p>Eu, descrente profissional, sempre achava gra&#231;a.</p><p>At&#233; perceber um padr&#227;o: toda vez que algo grave acontece naquela casa, eu tenho uma crise de ansiedade horas antes. Como se meu corpo fosse um r&#225;dio velho sintonizado no desastre alheio.</p><p>Ser&#225; ela? Minha av&#243;, que eu amava mais que qualquer coisa, me cutucando do al&#233;m? &#8220;&#211; fi, olha a&#237;, t&#227;o fazendo bagun&#231;a no meu terreno.&#8221;</p><p>N&#227;o sei. N&#227;o acredito. Mas tamb&#233;m n&#227;o duvido mais.</p><p>O mundo &#233; cheio de fios invis&#237;veis. A gente fica torcendo para que n&#227;o sejam verdade, at&#233; o dia em que a coincid&#234;ncia vira padr&#227;o, e o padr&#227;o vira assinatura.</p><p>Agora, sentado na varanda deste s&#237;tio, olhando o mesmo c&#233;u que ela olhava quando viva, me pergunto: ser&#225; que a morte n&#227;o &#233; fim, mas mudan&#231;a de frequ&#234;ncia? E ser&#225; que o amor, aquele amor raiz, de av&#243; e neto, consegue furar at&#233; o muro do eterno?</p><p>N&#227;o tenho resposta.</p><p>S&#243; sei que l&#225; na cidade, um homem que desperdi&#231;ou a vida est&#225; deitado num leito hospitalar. Uma mulher que ningu&#233;m gosta chora uma m&#227;e que talvez tamb&#233;m n&#227;o fosse grande coisa. E aqui no campo, um neto descrente sente falta da av&#243; e acredita em sinais.</p><p>Talvez a espiritualidade n&#227;o seja sobre Deus.</p><p>Seja apenas sobre fios que n&#227;o se rompem, mesmo quando a morte d&#225; seu n&#243;.</p><p>E sobre crises de ansiedade que, no fundo, s&#227;o s&#243; o cora&#231;&#227;o avisando: algu&#233;m que voc&#234; ama, mesmo depois de morto, ainda se importa.</p><div><hr></div><p><strong>A INSIGNIFIC&#194;NCIA CONFORTANTE</strong></p><p>S&#227;o 6h40 aqui no hotel fazenda. Acordei sem despertador, como se meu corpo soubesse que havia algo importante para ver. Sa&#237; ainda de pijama, os p&#233;s descal&#231;os na grama &#250;mida, e fui at&#233; o laguinho.</p><p>L&#225; estavam eles: uma m&#227;e pata e seus filhotes, patinhos,  formando uma fila perfeita. Ela na frente, grave e majestosa, eles atr&#225;s, desengon&#231;ados e fi&#233;is. Seguiram em prociss&#227;o silenciosa at&#233; a &#225;gua, como se cumprissem um ritual ancestral que n&#227;o precisa de plateia.</p><p>Olhei para cima. Na &#225;rvore, um bando de tucanos. Me lembrei de hist&#243;rias de que tucanos atacam, mas ali, naquele momento, eram apenas donos do galho. Suas cores vibrantes contra o c&#233;u ainda p&#225;lido pareciam um milagre ir&#244;nico, algo que acontece todos os dias, mas que a gente nunca para para ver.</p><p>E foi ali, entre patos e tucanos, que senti algo raro: o al&#237;vio da insignific&#226;ncia.</p><p>N&#243;s, humanos, passamos a vida tentando ser protagonistas. Inventamos dramas, carreiras, conflitos, como se o universo estivesse assistindo. Mas a verdade &#233; que o mundo n&#227;o gira em torno de n&#243;s. Ele gira em torno de coisas simples: de uma m&#227;e pata levando seus filhotes para nadar, de tucanos colorindo o amanhecer, de um lago que reflete nuvens sem precisar de filtro.</p><p>Somos min&#250;sculos. E que sorte a nossa.</p><p>Porque ser min&#250;sculo significa que nossos erros n&#227;o s&#227;o cataclismos c&#243;smicos. Nossas tristezas n&#227;o abalam as esta&#231;&#245;es. Nossos amores, por mais intensos, n&#227;o alteram o curso dos rios. H&#225; uma paz imensa em saber que, n&#227;o importa o que aconte&#231;a em nossas vidas confusas, os patos seguir&#227;o fazendo fila ao amanhecer.</p><p>Voltei para o quarto com os p&#233;s sujos de terra. A cidade, as contas, os compromissos, tudo isso parece agora um ru&#237;do distante. Aqui, o protagonismo pertence ao lago, &#224;s &#225;rvores, aos bichos que n&#227;o sabem o que &#233; ansiedade.</p><p>Talvez a maior sabedoria seja justamente esta: lembrar, de vez em quando, que n&#227;o somos o centro de nada. Apenas espectadores privilegiados de um espet&#225;culo que n&#227;o foi feito para n&#243;s, mas que nos inclui por bondade.</p><p>&#201; libertador.</p><p></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[que tal participar de um documentário?]]></title><description><![CDATA[notas e noias #27]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/que-tal-participar-de-um-documentario</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/que-tal-participar-de-um-documentario</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Tue, 06 Jan 2026 01:18:24 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>H&#225; um lugar no peito onde moram os amores que n&#227;o aconteceram.</p><p>Aqueles que ficaram na porta do cinema, literal ou figurada, esperando um ingresso que nunca chegou. Os que foram interrompidos pelo tempo, pela dist&#226;ncia, pela covardia, ou simplesmente pela vida que seguiu em frente antes que a gente tivesse coragem de dizer &#8220;ei, vamos tentar?&#8221;.</p><p>Eles n&#227;o s&#227;o fantasmas. S&#227;o fotografias borradas. S&#227;o conversas salvas no WhatsApp que a gente rel&#234; num domingo a tarde e sorri, meio triste, meio grato. S&#227;o os &#8220;e se&#8221; que doem e acalentam ao mesmo tempo.</p><p>Escrevo esse texto  de dentro de um projeto: um document&#225;rio que busca dar voz a esses amores. </p><p>N&#227;o para reviv&#234;-los, mas para honr&#225;-los. Porque h&#225; uma dignidade imensa no sentimento que n&#227;o se realizou, mas que existiu. Que nos moldou. Que nos fez mais humanos, mais ternos, mais cheios de hist&#243;rias para contar.</p><p>Se voc&#234; tem uma hist&#243;ria assim, daquela paix&#227;o plat&#244;nica da escola, do quase-romance que acabou em sil&#234;ncio, do amor que ficou em algum lugar, do olhar que nunca se transformou em toque, este post &#233; todo seu.</p><p>N&#227;o precisa ser grandioso. Pode ser pequeno, fr&#225;gil, quase invis&#237;vel. S&#243; precisa ser verdadeiro.</p><p>Me escreva. Me conte em voz baixa, como quem confessa um segredo ao ouvido de um desconhecido em quem, inexplicavelmente, confia. Seu depoimento pode ser an&#244;nimo, pode ser um &#225;udio, pode ser um bilhete rabiscado e largado na porta da minha casa. O importante &#233; que ele exista.</p><p>Porque talvez, juntando todas essas hist&#243;rias de amores interrompidos, a gente descubra algo bonito: que o amor n&#227;o &#233; medido apenas pelo que vivemos, mas tamb&#233;m pelo que sonhamos. E que esses sonhos, mesmo n&#227;o realizados, merecem um lugar na mem&#243;ria afetiva do mundo.</p><p>Esse post &#233; um convite. Uma m&#227;o estendida. Um &#8220;conta pra mim&#8221; dito no bar, entre estranhos que compartilham a mesma l&#237;ngua dos cora&#231;&#245;es que ainda guardam hist&#243;rias n&#227;o contadas.</p><p>Manda sua hist&#243;ria. Vamos imortalizar o quase.</p><p>Com o respeito de quem sabe que alguns amores s&#227;o maiores justamente por nunca terem cabido na realidade.</p><p>Pepeuzito do clio.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[tudo bem, seguimos, venceremos]]></title><description><![CDATA[notas e noias #25]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/tudo-bem-seguimos-venceremos</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/tudo-bem-seguimos-venceremos</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Thu, 18 Dec 2025 04:01:44 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>*rapaz, j&#225; s&#227;o 25 posts de reclama&#231;&#245;es cotidianas*</p><p>Eu n&#227;o sei perder. Nunca soube. Nasci com essa mancha na alma, esse defeito de f&#225;brica que transforma qualquer derrota num terremoto particular. Perco amores como se fosse a primeira vez toda vez, com a mesma cara de tonto, o mesmo n&#243; na garganta, a mesma incapacidade de entender por que n&#227;o fui escolhido.</p><p>Perco no uno com meus amigos e fico remoendo a jogada errada por dias. Perco prazos, perco reparos cotidianos no carro, perco a paci&#234;ncia em filas. Perco conversas que deveria ter tido, beijos que deveria ter dado, sil&#234;ncios que deveria ter quebrado. Sou um atleta ol&#237;mpico da perda, um especialista em ficar em segundo lugar na pr&#243;pria vida.</p><p>A terapia me ensinou a nomear esse monstro. Chamamos de &#8220;toler&#226;ncia zero &#224; frustra&#231;&#227;o&#8221;, de &#8220;ego ferido&#8221;, de &#8220;medo iminente do abandono&#8221;. Eu chamo de: ser uma crian&#231;a mimada que n&#227;o sabe levar um n&#227;o.</p><p>Mas depois de tantas quedas, aprendi a cair direito. Aprendi que perder n&#227;o &#233; o fim, &#233; s&#243; o intervalo entre uma rodada e outra. E que, &#224;s vezes voc&#234; ganha ficando vivo para jogar de novo no dia seguinte.</p><p>Meu lema &#233; simples e teimoso: <strong>&#8220;Vai ficar tudo bem, seguimos e venceremos.&#8221;</strong></p><p>Repito isso como um mantra nas madrugadas solit&#225;rias. Escrevo em guardanapos, sussurro no espelho ao escovar os dentes, tatuo mentalmente na pele toda vez que acontece. N&#227;o &#233; otimismo barato, &#233; estrat&#233;gia de guerra. Porque se eu parar de acreditar nisso, desisto de vez.</p><p>E desistir seria a &#250;nica derrota inaceit&#225;vel.</p><p>Ent&#227;o sigo. Perdendo, sim. Cair no amor errado, perder dinheiro em aposta idiota, tomar gol no &#250;ltimo minuto do jogo, ver amigos irem embora. Mas sempre, sempre me levantando. Com o joelho ralado e o orgulho ferido, mas levantando.</p><p>Porque descobri uma verdade suja: os que n&#227;o sabem perder s&#227;o os que mais insistem. E a insist&#234;ncia, talvez, seja uma forma de vit&#243;ria disfar&#231;ada.</p><p>Hoje, quando perco algo ou algu&#233;m, respiro fundo. Olho para a cidade l&#225; fora, essa mesma que j&#225; me derrotou tantas vezes, e digo, baixinho:</p><p><strong>Vai ficar tudo bem. Seguimos. E venceremos.</strong></p><p>Nem sempre acredito. Mas finjo at&#233; virar verdade.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[puts, to bebado e escrevendo numa newsletter]]></title><description><![CDATA[notas e noias #24]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/puts-to-bebado-e-escrevendo-numa</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/puts-to-bebado-e-escrevendo-numa</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Tue, 16 Dec 2025 22:45:07 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p></p><p>Confesso:<br>Minha educa&#231;&#227;o sentimental veio de um tremor de c&#226;mera.<br>N&#227;o das aulas de filosofiae nem dos livros obrigat&#243;rios.<br>Veio de Godard, aquele maluco que filmava mulheres fumando como se cada baforada fosse um soneto sujo.</p><p>Aprendi:<br>A vida n&#227;o tem trip&#233;.<br>&#201; na m&#227;o mesmo.<br>Tremida.<br>Com cortes brutos e di&#225;logos roubados de botecos.<br>Lembro da primeira vez que vi Acossado.<br>A c&#226;mera nas costas do Belmondo,<br>os planos-sequ&#234;ncia que respiravam como esquisitos geniais,<br>o jeito que a poesia nascia de um erro de continuidade.<br>Isso me moldou.<br>Eu, menino da Vila Curu&#231;a<br>vi Paris nos tijolos da feira do Pluskat.</p><p>E os gibis?<br>os gibis s&#227;o minha mitologia port&#225;til.<br>Guardo o Homem-Aranha #15 (capa rasgada, p&#225;ginas amarelas)<br>na prateleira das meias.<br>N&#227;o por nostalgia.<br>Por sobreviv&#234;ncia.<br>Peter Parker me ensinou que her&#243;is pagam aluguel atrasado, que o poder vem com dor de cabe&#231;a moral e que Mary Jane &#233; o verdadeiro milagre, n&#227;o a teia.</p><p>Quanto &#224; poesia b&#234;bada?<br>&#201; meu ritual de guerra.<br>Sexta-feira,<br>falecido boteco do Z&#233; Maria,<br>caneta Bic azul e guardanapo de papel.<br>A primeira cerveja limpa a garganta.<br>A segunda afia a lente do olho.<br>A terceira...<br>Ah, a terceira!<br>&#201; quando o Fantasma Prateado da Nouvelle Vague<br>beija o Homem-Aranha no canto do balc&#227;o<br>e nasce um verso com cheiro de torcida de pimenta.<br>Escrevo:<br>&#8220;A vida &#233; um plano detalhe<br>num filme sem diretor<br> e Deus &#233; um operador de c&#226;mera<br>com ressaca.&#8221;</p><p>Se me perguntarem &#8220;Como se sustenta um homem nesse mundo podre?&#8221;, respondo com tr&#234;s pilares: a c&#226;mera na m&#227;o,o gibi na mochila e a cerveja na mesa.</p><p>N&#227;o &#233; fuga.<br>&#201; tradu&#231;&#227;o.<br>Godard me deu a coragem de filmar sem permiss&#227;o.<br>Jack Kirby me deu mitos para explicar a queda.<br>E a Duplo Malte?<br>D&#225; o doping moral para juntar os cacos e chamar de arte.</p><p>Neste exato momento, enquanto escrevo esta cr&#244;nica, t&#225; rolando um Petzold pausado na Mubi, um gibi do Demolidor (que ganhei de presente de algu&#233;m especial) aberto na p&#225;gina 7 e uma Original suando no meu lado direito como um companheiro de cela.</p><p>Sou isso:<br>Um animal h&#237;brido.<br>Metade cineasta de guerrilha.<br>Metade menino com poderes.<br>Metade b&#234;bado metido a poeta.<br>(Sim, tr&#234;s metades, matem&#225;tica &#233; outra fic&#231;&#227;o).</p><p>E quando o mundo aperta, recorro &#224; trindade: vejo um filme do Jarmusch at&#233; as 3h, releio o grito &#8220;TA NA HORA DO PAU!&#8221; e despejo o f&#237;gado em versos que s&#243; fazem sentido sob a luz neon do boteco.</p><p>Se um dia minha l&#225;pide for lida,<br>que gravem:</p><p>Aqui jaz um filho bastardo<br>da Nouvelle Vague,<br>da Marvel<br>e da Cerveja Barata.<br>Passou pelo mundo tremendo a c&#226;mera,<br>rachando bal&#245;es de pensamento<br>e transformando &#225;lcool em sorte<br></p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[doente, torto, cheio de dívidas e silêncios]]></title><description><![CDATA[notas e noias #23]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/doente-torto-cheio-de-dividas-e-silencios</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/doente-torto-cheio-de-dividas-e-silencios</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Sat, 13 Dec 2025 02:34:03 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Existe um tipo de solid&#227;o que n&#227;o tem a ver com estar sozinho. Tem a ver com estar cercado de pessoas que voc&#234; ama e ainda assim carregar um abismo no peito t&#227;o fundo que nem o eco chega ao outro lado. Acontece quando as contas vencem no mesmo dia em que a alma decide fazer greve. Quando voc&#234; abre a geladeira e s&#243; tem luz, aquela luz amarela e fria que ilumina o vazio.</p><p>&#201; a&#237; que a coisa fica doente.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>Porque voc&#234; n&#227;o quer piedade. Quer compreens&#227;o. Quer algu&#233;m que olhe pra voc&#234; e diga &#8220;eu sei que voc&#234; est&#225; segurando o mundo com os dentes&#8221; sem que voc&#234; precise soltar as presas para explicar. Mas como pedir isso se suas palavras saem todas tortas, enroladas na ansiedade e no orgulho?</p><p>Voc&#234; se senta no sof&#225;, abre a boca, e s&#243; sai ar. O que voc&#234; quer dizer &#233;: &#8220;estou assustado&#8221;. O que sai &#233;: &#8220;tudo bem&#8221;. O que voc&#234; precisa &#233; de um abra&#231;o que dure mais de tr&#234;s segundos. O que voc&#234; oferece &#233; um &#8220;n&#227;o, eu resolvo&#8221;.</p><p>A falta de dinheiro d&#243;i no bolso, mas a falta de compreens&#227;o d&#243;i na medula. E o pior &#233; quando voc&#234; olha no espelho e nem voc&#234; mesmo se entende mais. Vira um estranho falando sozinho no banheiro, debatendo com as pr&#243;prias sombras enquanto a &#225;gua quente acaba.</p><p>&#192;s vezes penso que todos n&#243;s carregamos uma placa invis&#237;vel nas costas escrito PRECISO QUE ALGU&#201;M ME VEJA. Mas temos tanto medo de que leiam que passamos a vida andando de costas pra parecer indecifr&#225;veis.</p><p>N&#227;o sei se isso &#233; doen&#231;a ou s&#243; a condi&#231;&#227;o humana em estado bruto. S&#243; sei que alguns dias a &#250;nica coisa que me segura s&#227;o esses rabiscos digitais no meu bloco de notas. Como se as palavras fossem fios telef&#244;nicos cortados, eu falo de um lado, sem saber se algu&#233;m ouve do outro (refer&#234;ncia datada).</p><p>Talvez essa cr&#244;nica seja s&#243; mais um grito mudo. Mas pelo menos &#233; meu. Doente, torto, cheio de d&#237;vidas e sil&#234;ncios, mas meu.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[eu me estressei por conta de um pepperoni]]></title><description><![CDATA[notas e noias #21]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/eu-me-estressei-por-conta-de-um-pepperoni</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/eu-me-estressei-por-conta-de-um-pepperoni</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Thu, 27 Nov 2025 17:34:36 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>notas e noias #21</p><p></p><p>Eu estava prestes a cometer um crime contra mim mesmo por educa&#231;&#227;o. A voz j&#225; estava saindo da garganta "tudo bem, pode ser a de queijo hut mesmo" , quando a m&#227;o dela cobriu a minha no balc&#227;o do Pizza Hut. O toque foi suave, mas com a firmeza de quem me conhece mais que eu mesmo.</p><p>"Mo&#231;a, ele vai esperar a de pepperoni", ela disse, como se estivesse anunciando um fato hist&#243;rico incontest&#225;vel. "Ele gosta tanto de pizza de pepperoni".</p><p>E eu ali, com meu mestrado em criar problemas onde n&#227;o existem, meu doutorado em transformar pequenos inconvenientes em crises existenciais. Minha mente j&#225; tinha constru&#237;do um castelo de frustra&#231;&#227;o: o estresse do trabalho, o tr&#226;nsito, a demora, a atendente idosa que parecia cansada, tudo se encaixando perfeitamente na minha necessidade doentia de ter motivos para reclamar.</p><p>Mas ela cortou tudo com uma frase simples.</p><p>Enquanto esper&#225;vamos os quinze minutos eternos, fiquei olhando para ela. Para as m&#227;os que mexiam no celular, para o jeito que ela ignorou completamente meu drama interno porque j&#225; aprendeu que meu estresse &#233; s&#243; uma crian&#231;a grande querendo aten&#231;&#227;o.</p><p>A pizza chegou. O queijo derretendo, o pepperoni levemente crocante. E eu percebendo que amar n&#227;o &#233; s&#243; sobre os grandes gestos, &#233; sobre algu&#233;m que te impede de trair seus pr&#243;prios desejos pequenos. Que luta pela sua pizza preferida quando voc&#234; j&#225; se rendeu &#224; mediocridade por cansa&#231;o.</p><p>Ela n&#227;o me deu s&#243; pepperoni. Me deu um lembrete: que o amor &#224;s vezes &#233; algu&#233;m segurando sua m&#227;o e dizendo "n&#227;o, voc&#234; merece o que voc&#234; realmente quer", mesmo que seja algo aparentemente imbecil como uma massa redonda com um tipo de salame.</p><p>E eu, com a boca cheia de pepperoni e gratid&#227;o, s&#243; pude concordar.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[eu conheci a fofura e me achei amargo ]]></title><description><![CDATA[notas e noias #21]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/eu-conheci-e-fofura-e-me-achei-amargo</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/eu-conheci-e-fofura-e-me-achei-amargo</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Thu, 20 Nov 2025 18:20:26 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Meus alunos respondem a Dora Aventureira.</p><p>N&#227;o &#233; met&#225;fora. &#201; real. Quando ela para na tela do datashow e pergunta &#8220;&#191;D&#243;nde est&#225; el mapa?&#8221;, vinte e cinco vozes em coro gritam &#8220;ALI&#8221; com a convic&#231;&#227;o de quem realmente acredita que um macaco falante e uma menina de mochila v&#227;o salvar o mundo.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div><p>E eu, com meus quase trinta  anos e um cora&#231;&#227;o criado por adultos que me mostravam Monty Python quando deveria estar vendo Bob Esponja, me descubro rindo com um olho e chorando com o outro.</p><p>Porque eu nunca tive isso.</p><p>Minha inf&#226;ncia foi Family Guy &#224;s escondidas, South Park com piadas que n&#227;o entendia, e Monty Python me ensinando que a vida &#233; absurda antes mesmo de eu saber amarrar os sapatos. Meus her&#243;is n&#227;o tinham mochilas m&#225;gicas, tinham sotaque brit&#226;nico e um del&#237;rio existencial. Achava desenho infantil imbecil. Me orgulhava disso como quem exibe um trof&#233;u de prematuridade emocional.</p><p>Mas agora, vendo meus alunos, esses seres puros que ainda acreditam em mapas falantes e em perguntas que sempre tem resposta, sinto uma pontada de inveja. Inveja da f&#233;. Inveja do mundo simples onde os problemas se resolvem em 22 minutos com uma can&#231;&#227;o e um &#8220;MUITO BEM&#8221;.</p><p>Eles n&#227;o sabem que o mundo l&#225; fora &#233; mais Holy Grail do que Dora Aventureira. Que as bruxas n&#227;o s&#227;o derrotadas com feiti&#231;os em espanhol, que os castelos n&#227;o tem pontes levadi&#231;as, e que a maioria dos mapas n&#227;o leva a lugar nenhum.</p><p>Mas talvez... s&#243; talvez... eles estejam certos.</p><p>Porque enquanto eu decorava &#8220;Nobody expects the Spanish Inquisition!&#8221;, eles aprendiam a gritar &#8220;CONSEGUIMOS&#8221; quando conseguiam algo. Enquanto eu ria do humor negro de Peter Griffin, eles estavam aprendendo a trabalhar em equipe com Botas, o Macaco.</p><p>Hoje, entre uma explica&#231;&#227;o sobre diminutivo e aumentativo e uma tela onde a Dora dan&#231;a, percebo:</p><p>N&#227;o importa se sua inf&#226;ncia foi regada a John Cleese ou a mochila m&#225;gica. No final, todo mundo s&#243; quer algu&#233;m que responda quando voc&#234; faz uma pergunta pro vazio.</p><p>E talvez eu esteja, aos trancos e barrancos, reaprendendo a ser crian&#231;a atrav&#233;s dos&nbsp;olhos&nbsp;deles.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Como quem acredita que alguma coisa pode ser bela de novo, mesmo depois de tantas madrugadas erradas.</p><p>Eu, que havia me acostumado com a derrota, com os amores que se foram deixando rastros, as contas que n&#227;o fecham no fim do m&#234;s, a solid&#227;o que virou minha sombra nos botecos, hoje me vejo diante de um milagre ordin&#225;rio. Um daqueles que n&#227;o aparecem na TV, mas que doem de t&#227;o reais.</p><p>Lembrei de tudo enquanto dirigia para casa. Das noites em que bebi at&#233; n&#227;o sentir o gosto da pr&#243;pria exist&#234;ncia. Dos t&#233;rminos que do&#237;am mais que dente cariado. Das salas de aula onde tentava ensinar algo para crian&#231;as que nem sabiam por que estavam ali. E no meio desse caos todo, a not&#237;cia chegou como um raio de sol em dia de temporal.</p><p>A vida presta.</p><p>N&#227;o a vida das redes sociais, nem  a vida dos filmes. A vida real, essa que inclui o choro no banheiro, o cansa&#231;o das sextas-feiras, o medo de n&#227;o dar certo. Essa mesma vida que hoje me mostrou que, no meio da guerra, &#224;s vezes chega uma tr&#233;gua.</p><p>Meu pai, que enfrentou tratamentos, perdeu cabelo que nem tinha, perdeu for&#231;as, mas nunca perdeu o humor sarc&#225;stico que nos une, est&#225; livre. E de repente, todas as pequenas tristezas que carregava parecem... menores.</p><p>A cerveja solit&#225;ria ainda vai acontecer. As contas v&#227;o continuar chegando. O cora&#231;&#227;o vai continuar batendo no ritmo errado &#224;s vezes. Mas hoje, nada disso importa.</p><p>Porque a vida, essa desgra&#231;ada sem humor, me deu de presente o que eu mais precisava: <strong>a prova de que nem toda luta &#233; em v&#227;o.</strong></p><p>E se o velho Gato venceu essa batalha, quem sou eu para n&#227;o levantar da mesa e pedir outra rodada?</p><p>Desta vez, por&#233;m, n&#227;o para afogar as m&#225;goas. Mas para brindar.</p><p>Brindar aos dias ruins que nos ensinam a saborear os bons.<br>Aos amores que se foram, mas que nos fizeram sentir vivos.<br>Aos amigos que ficaram, mesmo quando n&#227;o t&#237;nhamos nada para oferecer.<br>E ao simples, extraordin&#225;rio, miraculoso ato de seguir em frente.</p><p>Obrigado, pai.<br>Obrigado, vida.<br></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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S&#243; colocava a primeira dose na sua frente com aquele olhar de &#8220;sei que voc&#234; vai pagar, mas n&#227;o sei por que ainda vem&#8221;.</p><p>As noites eram diferentes agora. Antes, o bar era palco de hist&#243;rias &#233;picas, paqueras que davam certo (pouqu&#237;ssimas), discuss&#245;es sobre bandas que ningu&#233;m conhecia, planos absurdos para a madrugada de s&#225;bado. Agora, ele bebia sozinho, observando casais brigando na mesa ao lado e grupos de colegas de trabalho fingindo ser amigos.</p><p>Numa dessas noites, um garoto sentou ao seu lado. N&#227;o devia ter mais que vinte e poucos anos. Cheirava a ambi&#231;&#227;o e ansiedade, igual a todos nessa idade.</p><p>&#8212; Cara, voc&#234; &#233; sempre o primeiro a chegar e o &#250;ltimo a ir embora.</p><p>Ele revirou os olhos.</p><p>&#8212; N&#227;o &#233; por op&#231;&#227;o, de verdade.</p><p>Enquanto o garoto falava de festas e Tinder, ele via nos rostos refletidos no espelho atr&#225;s do balc&#227;o todos os amigos que tinham virado adultos de verdade. Eles trocaram a gra&#231;a pela responsabilidade, a espontaneidade pela previsibilidade.</p><p>E no fundo, ele at&#233; os entendia.</p><p>Quando o garoto saiu para uma noite que certamente seria &#8220;a melhor da vida dele&#8221;, ele ficou. Como sempre ficava. Bebendo devagar, saboreando, n&#227;o a cerveja, mas o sil&#234;ncio que ocupava o espa&#231;o onde antes havia risos.</p><p>O &#250;ltimo dos solteiros n&#227;o estava ali por gosto. Estava por h&#225;bito. E talvez porque, bem no fundo, tinha medo do que encontraria em casa, aquele vazio de quem parou no tempo enquanto o mundo seguia em frente.</p><p>Na manh&#227; seguinte, com ressaca e arrependimento, ele prometia que seria a &#250;ltima vez.</p><p>Mas na sexta-feira seguinte, l&#225; estava de novo.</p><p>Porque algumas pessoas n&#227;o sabem ser outra coisa sen&#227;o o &#250;ltimo a ir embora.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Ela chegava em casa com uma pasta cheia de documentos, os olhos cansados de tanto ler contratos e planilhas. </p><p>&#8212; Voc&#234; j&#225; pensou em vender algum quadro? &#8212; ela perguntou, sem levantar os olhos do relat&#243;rio que revisava. </p><p>&#8212; N&#227;o pinto para vender &#8212; ele respondeu, misturando um azul com um branco na paleta. </p><p>&#8212; Mas seria uma renda extra. </p><p>&#8212; N&#227;o &#233; sobre dinheiro. </p><p>Ela suspirou. Nunca entendia. Para ela, tudo tinha que ter um prop&#243;sito pr&#225;tico, um resultado mensur&#225;vel. Para ele, a arte era o processo, o caos controlado das cores, a imperfei&#231;&#227;o que fazia sentido s&#243; para ele. </p><p>Quando ela tentava explicar sobre os novos regulamentos do trabalho, ele balan&#231;ava a cabe&#231;a, sorria, mas seus olhos perdiam o foco depois do terceiro termo t&#233;cnico. </p><p>&#8212; Voc&#234; nem est&#225; ouvindo &#8212; ela reclamava. </p><p>&#8212; Estou tentando &#8212; ele dizia, e era verdade. Mas as palavras dela pareciam escorrer por ele como &#225;gua. </p><p>Ainda assim, havia algo que os mantinha juntos. Talvez fosse o caf&#233; da manh&#227; em sil&#234;ncio, ela lendo not&#237;cias no celular, ele rabiscando no guardanapo. Talvez fossem as noites em que ela, exausta, se encostava no ombro dele enquanto ele desenhava, e ele, sem perguntar, come&#231;ava a pintar algo que ela reconheceria, o contorno do seu rosto, a curva do seu pulso sobre a mesa de trabalho. </p><p>Ningu&#233;m diria que aquilo era amor. Nem eles mesmos sabiam. Mas continuavam tentando, cada um &#224; sua maneira, sem nunca realmente se encontrarem. </p><p>E assim </p><p>seguiam. </p><p> </p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[daqueles sonhos que nem da pra explicar]]></title><description><![CDATA[notas e noias #17]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/daqueles-sonhos-que-nem-da-pra-explicar</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/daqueles-sonhos-que-nem-da-pra-explicar</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Tue, 21 Oct 2025 23:00:52 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>*FUI PROCURAR O QUE SIGNIFICAVA SONHAR COM RATO E O GOOGLE ME CHAMOU DE INSEGURO, DESEQUILIBRADO E QUE ME ODEIO*</p><p>Pedro matou o primeiro rato numa ter&#231;a-feira. O intruso estava sob a pia da cozinha, roendo um pacote de macarr&#227;o. Foi f&#225;cil, bastou uma vassourada certeira, depois o sil&#234;ncio. Seus dois gatos observaram de longe, com o desd&#233;m t&#237;pico de quem prefere que os humanos fa&#231;am o trabalho sujo. Nos tr&#234;s dias seguintes, apareceram mais tr&#234;s. Um no arm&#225;rio da cozinha, mastigando uma trakinas que estava minuciosamente escondida. Outro na gaveta de meias. O &#250;ltimo, atrevido, sobre a cama, como se esperasse por ele.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Os gatos se encolhiam sob os m&#243;veis, as orelhas rentes ao cr&#226;nio.</p><p>Quando a invas&#227;o veio, foi por todas as frestas ao mesmo tempo. Das calhas, dos ralos, dos v&#227;os entre as telhas, jorraram ratos. N&#227;o duzias, mas centenas, talvez milhares. Uma mar&#233; viva de pelo e dentes, cobrindo o ch&#227;o, paredes e m&#243;veis. Pedro gritou, apanhou os gatos e fugiu. N&#227;o pegou chaves, carteira, nada. Apenas os dois corpos quentes e tr&#234;mulos contra seu peito.</p><p>Correu at&#233; n&#227;o poder mais. Quando parou, ofegante, estava diante da casa de sua av&#243;, falecida h&#225; onze anos, a casa agora vazia, trancada, mas com a chave ainda sob a janela da cozinha, como sempre.</p><p>Dentro, o tempo cheirava a naftalina e biscoitos de polvilho. Colocou os gatos no ch&#227;o. Eles farejaram os c&#244;modos, miando baixo. Foi ent&#227;o que as vozes come&#231;aram.</p><p>N&#227;o vozes reais, mas mem&#243;rias, ou algo al&#233;m delas. A voz da vizinha, falando da infesta&#231;&#227;o de ratos no bairro todo. A voz do seu antigo professor de hist&#243;ria, discorrendo sobre como pragas sempre acompanharam a ascens&#227;o e queda de imp&#233;rios. E por fim, a voz de sua av&#243;, clara como se estivesse na sala:</p><p>&#8212; Eles n&#227;o vem s&#243; pelos canos, meu filho. Eles vem pelas contas, pelos contratos, pelas telas. Roem tudo. At&#233; a alma.</p><p>Pedro olhou pela janela. L&#225; fora, a cidade parecia normal. Carros passavam. Pessoas andavam. Mas agora ele via, realmente via os fios invis&#237;veis que os ratos haviam ro&#237;do. Cabos de internet mordiscados, sinais de wifi interrompidos, contas banc&#225;rias esvaziadas num piscar de olhos. Os ratos n&#227;o eram apenas animais, eram a encarna&#231;&#227;o de um sistema que consumia tudo, at&#233; os sonhos.</p><p>Naquela noite, na casa silenciosa da av&#243;, com os gatos enrolados a seus p&#233;s, Pedro entendeu. A praga j&#225; estava dentro de todos. Roendo poupan&#231;as, rela&#231;&#245;es, sanidades. E n&#227;o havia veneno que a detivesse.</p><p>Ele abriu um caderno velho de sua av&#243;. Escreveu:</p><p><em>&#8220;Quando os ratos vierem, n&#227;o lute. Eles j&#225; venceram. Apenas guarde seus gatos e fuja para onde o tempo ainda respeita o sil&#234;ncio.&#8221; </em></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. Para receber novos posts e apoiar o meu trabalho, considere tornar-se um subscritor gratuito ou pago.</p></div><form class="subscription-widget-subscribe"><input type="email" class="email-input" name="email" placeholder="Digite o seu e-mail..." tabindex="-1"><input type="submit" class="button primary" value="Subscrever"><div class="fake-input-wrapper"><div class="fake-input"></div><div class="fake-button"></div></div></form></div></div>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[o mundo surtou de vez mesmo]]></title><description><![CDATA[notas e noias #16]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/o-mundo-surtou-de-vez-mesmo</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/o-mundo-surtou-de-vez-mesmo</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Mon, 06 Oct 2025 22:46:14 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Dizem que come&#231;ou com os p&#225;ssaros, mas ningu&#233;m mais se lembra ao certo. Os pombos simplesmente pararam no ar um dia, como se o tempo tivesse esquecido de avan&#231;ar para eles, e assim permaneceram, suspensos em pleno voo, silenciosos sobre os fios da cidade. Ningu&#233;m comentou. Talvez j&#225; estiv&#233;ssemos ocupados demais aprendendo a rir por nada, em coro, nos pontos de &#244;nibus e nas filas do banco.</p><p>Agora as regras s&#227;o outras, mas ningu&#233;m as escreveu em lugar nenhum. Chorar em p&#250;blico rende uma multa grav&#237;ssima. Todos precisam postar tr&#234;s selfies sorrindo por hora nas redes, sen&#227;o o cr&#233;dito social despenca. E a palavra &#8220;solid&#227;o&#8221; foi abolida do vocabul&#225;rio, substitu&#237;da por &#8220;intervalo estrat&#233;gico&#8221;, que soa mais produtivo e menos triste.</p><p>Meu nome era Pedro, mas agora sou 8566-Z. Os nomes pr&#243;prios foram considerados gatilhos emocionais ap&#243;s o grande surto coletivo. Todos somos n&#250;meros agora, &#233; mais seguro, mais limpo, mais organizado. Hoje fui &#224; farm&#225;cia do posto buscar um analg&#233;sico para uma dor de cabe&#231;a bem teimosa. A atendente, 342-Z, me recebeu com um sorriso perfeito, daqueles que mostram exatamente doze dentes e zero alma.</p><p>Ela exigiu um relat&#243;rio de felicidade para liberar o rem&#233;dio. Argumentei que era apenas uma dor de cabe&#231;a, algo pequeno, mas ela me corrigiu com paci&#234;ncia burocr&#225;tica: dor &#233; um conceito ultrapassado, chamamos isso de &#8220;desalinhamento sensorial&#8221;. Enquanto esperava a autoriza&#231;&#227;o, observei o movimento na rua. Homens e mulheres impec&#225;veis conversavam sozinhos, alguns discutiam com vozes invis&#237;veis, outros riam de piadas que s&#243; existiam dentro de suas cabe&#231;as. Um senhor bem vestido beijava a m&#227;o do ar e chamava de &#8220;amor&#8221;.</p><p>O surto coletivo n&#227;o veio como trag&#233;dia, mas como al&#237;vio. Quando cansa demais fingir que est&#225; tudo bem, a loucura se torna o &#250;ltimo porto seguro. No &#244;nibus de volta para o setor 9 (&#233; assim que chamam S&#227;o Miguel agora), sentei ao lado de uma mulher que contava hist&#243;rias para uma x&#237;cara vazia. Ela me ofereceu a&#231;&#250;car e eu aceitei. Fingimos juntos que havia caf&#233; naquela x&#237;cara invis&#237;vel, e naquele momento aquilo era mais real que tudo do lado de fora.</p><p>Meu cub&#237;culo tem paredes transparentes, lei antissolid&#227;o. Meus vizinhos me observam escovar os dentes e eu aceno. Eles retribuem o cumprimento. Ningu&#233;m se importa de verdade. A insanidade nos deu, finalmente, a privacidade que a sanidade sempre nos negou. Amanh&#227; terei que atualizar meu certificado de contentamento no trabalho, mostrar os registros das minhas risadas no metr&#244; e comprovar que assisti a todos os memes obrigat&#243;rios do dia.</p><p>Mas agora, &#224;s 23:47, deixo meu rosto cair. Desligo o sorriso oficial. E pela primeira vez no dia, me permito sentir o vazio que habita meu peito. &#201; o meu &#250;nico ato de rebeldia aut&#234;ntico num mundo de fingimento obrigat&#243;rio. Aceitar que surtamos de vez, talvez seja a primeira coisa s&#227; que fizemos em d&#233;cadas.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[hoje eu admiti que não tô legal]]></title><description><![CDATA[notas e noias #15]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/hoje-eu-admiti-que-nao-to-legal</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/hoje-eu-admiti-que-nao-to-legal</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Mon, 29 Sep 2025 02:10:22 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>Desisti.</p><p>N&#227;o de tudo, n&#227;o da vida (ainda n&#227;o, RISOS), mas da press&#227;o de ser algu&#233;m que eu claramente n&#227;o sou neste momento. Domingo foi pesado como uma tijolada no saco. Acordei e percebi que minha cabe&#231;a n&#227;o &#233; mais um lugar seguro, e tentar for&#231;ar a felicidade &#233; como tentar acender um isqueiro debaixo d&#8217;&#225;gua.</p><p>Ent&#227;o eu desisti.</p><p>Desisti de escrever textos profundos quando tudo que sinto &#233; raso. Desisti de tentar criar hist&#243;rias felizes quando minha mat&#233;ria prima &#233; tristeza antiga. Desisti de fingir que a solid&#227;o n&#227;o me assusta &#224;s 3h da manh&#227;, quando o sil&#234;ncio fala mais alto que todos os meus personagens juntos.</p><p>Agora eu s&#243; respiro.</p><p>Deixo o caf&#233; esfriar. Deixo as mensagens sem resposta. N&#227;o &#233; derrota, &#233; estrat&#233;gia. &#201; o modo de sobreviv&#234;ncia que a gente ativa quando percebe que n&#227;o d&#225; pra escalar uma montanha com a perna quebrada.</p><p>Eu queria falar sobre felicidade, sim. Queria escrever sobre luz. Sobre abra&#231;os que curam. Sobre dias bons. Mas hoje n&#227;o sou arquiteto de alegria, sou um agricultor de merda, juntando os cacos que sobraram de mim com as ferramentas que tenho: paci&#234;ncia, sil&#234;ncio e a coragem de admitir que n&#227;o estou bem.</p><p>Meus textos nascem do que sou, n&#227;o do que quero ser. E no momento, sou isso: um cara sentado num quarto min&#250;sculo ouvindo o spotify tocar m&#250;sica antiga (2007 j&#225; &#233; vintage?), lembrando que sobreviver j&#225; &#233; um ato de resist&#234;ncia.</p><p>Talvez amanh&#227; eu tente de novo. Talvez na quinta-feira. Ou no pr&#243;ximo m&#234;s. Por enquanto, me permito existir no modo m&#237;nimo. Sem culpa. Sem pressa.</p><p>Porque &#224;s vezes a &#250;nica forma de n&#227;o enlouquecer &#233; abaixar as armas e dizer pro mundo:</p><p>&#8220;Hoje n&#227;o. Hoje eu s&#243; respiro.&#8221;</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Desaba.<br>Temos o que precisamos,<br>caf&#233; pra acordar o morto,<br>s&#233;rie pra rir do desastre,<br>e cigarro pra assinar<br>&#8220;recebido&#8221;<br>no caos di&#225;rio.</p><div><hr></div><p><strong>HAICAI ENTORNADO</strong></p><p>Godard em Super-8<br> Hulk esmaga <em>POW!</em> no bal&#227;o <br>verso no fundo do copo</p><div><hr></div><p><strong>PAZ FILHA DA PUTA</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Mesa de edi&#231;&#227;o vazia,
luzes de neon mortas,
cadeira girat&#243;ria parada.

Press&#227;o me fez med&#237;ocre.
Agora?
S&#243; pe&#231;o:
deixem-me em paz
com meu bloco de notas
e palavras raivosas.</pre></div><p></p><div><hr></div><p><strong>SARCASMO</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Family Guy aos sete anos
Piadas &#225;cidas, Peter burro,
Stewie psicopata, minha B&#237;blia torta.

Algu&#233;m completou:
&#8220;Moleque frouxo!&#8221; entre socos.
Aprendi a sangrar rindo.

O milagre?
Transformei o veneno em tinta.
Sobrevivi por sarcasmo.</pre></div><p></p><div><hr></div><p><strong>MEDIOCRE E LUN&#193;TICO</strong></p><div class="preformatted-block" data-component-name="PreformattedTextBlockToDOM"><label class="hide-text" contenteditable="false">Text within this block will maintain its original spacing when published</label><pre class="text">Ah, a mediocridade,
minha sombra confort&#225;vel.
Nela, fiz morada
e milagres m&#237;nimos.
Que b&#234;n&#231;&#227;o
n&#227;o ser monumento.</pre></div><p></p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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N&#227;o entendia nada, claro. S&#243; sabia que aquela batida repetitiva grudava na cabe&#231;a feito chiclete vagabundo, e aquele homem falava coisas esquisitas com uma urg&#234;ncia de quem est&#225; prestes a ser engolido pelo mundo.</p><p>"O pulso ainda pulsa... o pulso ainda pulsa".</p><p>Eu repetia como um mantra sem saber porqu&#234;. Cantarolava no banho, na fila da escola, como se fosse uma besteira qualquer. Hoje , dirigindo meu querido Clio, pensando nas batidas e passando por uma avenida entupida perto do trabalho, a m&#250;sica voltou. E dessa vez, ela me atingiu como um soco no est&#244;mago.</p><p>N&#227;o era s&#243; uma m&#250;sica. Era um diagn&#243;stico. Um raio X da humanidade doente e ainda insistente. Arnaldo Antunes contando doen&#231;as, dores, absurdos, e no meio de tudo, a frase que resistia: o pulso ainda pulsa.</p><p>Parei o carro num farol e fiquei olhando as pessoas na cal&#231;ada. Todas com seus corpos cheios de dores reais e imagin&#225;rias, suas pestes modernas, suas neuroses de farm&#225;cia. E ainda assim, seguindo. Respirando. Pulsando.</p><p>Eu t&#244; com meus trinta anos nas costas, minhas pr&#243;prias doen&#231;as n&#227;o diagnosticadas, minhas dores de existir, pensando: caralho, como eu queria ter escrito isso. Como eu queria ter tido a genialidade de pegar algo t&#227;o &#243;bvio e transformar num hino t&#227;o perfeito, t&#227;o cru, t&#227;o verdadeiro.</p><p>&#201; a beleza e a maldi&#231;&#227;o de encontrar uma obra prima, voc&#234; ama e odeia ao mesmo tempo. Ama por existir. Odeia porque n&#227;o saiu da sua pr&#243;pria cabe&#231;a.</p><p>O farol ficou verde. A m&#250;sica terminou. Segui dirigindo, mas agora olhando para a cidade como se ela fosse a pr&#243;pria letra da m&#250;sica. Cada buraco na rua, uma "&#250;lcera". Cada gritaria de vendedor de bala, uma "hipocondria". Cada olhar perdido num celular, uma "afasia". E no meio de tudo, a batida card&#237;aca da cidade, insistente.</p><p>O pulso ainda pulsa.</p><p>Eu sei que talvez n&#227;o precise ter composto a m&#250;sica. Talvez basta ter ouvido na hora certa. E carregar como um lembrete de que, mesmo com a peste, a dor, a f&#233; e o v&#237;rus, a gente segue.</p><p>O pulso ainda pulsa.</p><p>E eu, por incr&#237;vel que&nbsp;pare&#231;a,&nbsp;tamb&#233;m.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[as vezes eu escrevo teatro sem saber escrever teatro]]></title><description><![CDATA[notas e noias #12]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/as-vezes-eu-escrevo-teatro-sem-saber</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/as-vezes-eu-escrevo-teatro-sem-saber</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Sat, 20 Sep 2025 22:07:11 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<p>*SEGUE UMA SEQU&#202;NCIA DO QUE ERA PRA SER UM CURTA E VIROU DOIS MONOLOGOS SOBRE UM TERMINO*</p><p><strong>&#218;LTIMO ATO NO APARTAMENTO VAZIO </strong></p><p>ELE </p><p>(encostado na porta, chaves na m&#227;o) </p><p>Acho que a gente virou aquela planta que a gente sempre esquece de regar. </p><p>ELA </p><p>(embrulhando a &#250;ltima x&#237;cara em jornal) </p><p>N&#227;o. Plantas morrem em sil&#234;ncio. A gente t&#225; &#233; fazendo um barulho danado pra coisa que j&#225; </p><p>morreu faz tempo. </p><p>ELE </p><p>Voc&#234; vai levar a x&#237;cara quebrada tamb&#233;m? Aquela que a gente colou com superbonder? </p><p>ELA </p><p>Vou. Ela me lembra que at&#233; coisa quebrada pode servir pra alguma coisa. Por um tempo. </p><p>(Pausa. O som do tr&#226;nsito l&#225; fora entra pela janela aberta.) </p><p>ELE </p><p>Lembra quando a gente se mudou pra c&#225;? O elevador tava quebrado. Subimos seis andares </p><p>com colch&#227;o nas costas. </p><p>ELA </p><p>Voc&#234; reclamou o caminho inteiro. Disse que ia morrer. </p><p>ELE </p><p>E voc&#234; disse: "Pelo menos vamos morrer juntos". </p><p>ELA </p><p>&#201;. E agora a gente vai viver separados. </p><p>(Ela fecha a caixa. O som da fita adesiva rasgando &#233; obscenamente alto.) </p><p>ELE </p><p>&#201; definitivo ent&#227;o? &#201; isso? Mais nada? </p><p>ELA </p><p>T&#227;o definitivo quanto a mancha de vinho no sof&#225;. T&#227;o definitivo quanto a cicatriz no seu </p><p>queixo daquela noite no beco. </p><p>ELE </p><p>Eu te amo ainda. </p><p>ELA </p><p>Pois &#233;. E eu tamb&#233;m. S&#243; que n&#227;o basta mais, n&#233;? Amor &#233; o come&#231;o da hist&#243;ria, n&#227;o o final. </p><p>(Ela levanta a caixa. Ele n&#227;o se mexe.) </p><p>ELE </p><p>Precisa que eu te ajude a descer? </p><p>ELA </p><p>N&#227;o. Eu acho que s&#243; preciso voc&#234; n&#227;o me ligue &#224;s 3h da manh&#227;. Eu preciso que voc&#234; me deixe </p><p>sumir de verdade. </p><p>ELE </p><p>E se eu prometer que... </p><p>ELA </p><p>(interrompendo) </p><p>N&#227;o. Nada de promessas. A gente j&#225; encheu a casa toda delas. T&#225; at&#233; vazando pela porra das </p><p>frestas. </p><p>(Ela atravessa a sala pela &#250;ltima vez. Para na porta.) </p><p>ELA </p><p>(Suave) </p><p>Cuida do Clio. E para de estacionar em zona azul. </p><p>ELE </p><p>(sorrindo triste) </p><p>Ele vai sentir sua falta. O banco vai afundar de novo. </p><p>ELA </p><p>A&#237; voc&#234; arruma. Como sempre arrumou tudo. Como arrumou a x&#237;cara. Como arrumou a gente. </p><p>Por um tempo. </p><p>Ela sai. A porta n&#227;o chega a bater. Fica aberta. O corredor est&#225; vazio. Ele fica parado, olhando a </p><p>marca no ch&#227;o onde o sof&#225; estava.</p><div><hr></div><p><strong> A MARCA NO CH&#195;O </strong></p><p>ELE </p><p>(ri baixo, amargo) </p><p>A porta ficou aberta. Claro que ficou. Ela sempre reclamou que eu nunca fechava nada direito, </p><p>portas, gavetas, conversas... Agora deixou a maior de todas abertas. Pra eu ter que ser adulto </p><p>e fechar sozinho. </p><p>(Ergue a garrafa, como se fosse um brinde) </p><p>Ela levou a x&#237;cara colada. A quebrada. A que a gente tentou consertar tr&#234;s vezes e sempre </p><p>vazava. Deveria ser um s&#237;mbolo, n&#233;? Mas n&#227;o &#233;. &#201; s&#243; uma x&#237;cara porca que n&#227;o segura l&#237;quido. </p><p>Como eu. N&#227;o seguro nada. Nem ela. </p><p>(Bebe um gole longo) </p><p>O sof&#225; saiu. E ficou a marca no ch&#227;o. Um ret&#226;ngulo p&#225;lido de poeira e tempo. A &#250;nica prova de </p><p>que alguma coisa esteve aqui. A gente passa a vida toda acumulando marcas, no ch&#227;o, nas </p><p>paredes, nas pessoas, e no fim &#233; isso o que sobra: um contorno vazio do que um dia foi s&#243;lido. </p><p>(Coloca a garrafa no ch&#227;o com cuidado excessivo) </p><p>Ela disse que amor &#233; o come&#231;o, n&#227;o o final. Mentira. Amor &#233; a parede que a gente pinta juntos, </p><p>&#233; o piso que a gente escolhe, &#233; a x&#237;cara quebrada que a gente insiste em usar. Amor &#233; o </p><p>processo. O final... o final &#233; o sil&#234;ncio depois que a porta n&#227;o bate. </p><p>(Levanta, caminha at&#233; o centro do palco, onde a marca do sof&#225; estaria) </p><p>Aqui. Era aqui que a gente se amava e se machucava. Onde eu a ouvi rir enquanto queimava o </p><p>jantar. Onde ela me achou chorando depois do enterro do vov&#244;. Onde a gente decidiu </p><p>terminar, n&#227;o numa briga, mas num sussurro. Como se j&#225; soub&#233;ssemos que barulho era pra </p><p>come&#231;o de coisa, n&#227;o pra fim. </p><p>(Olha para a porta aberta) </p><p>E o pior &#233; que ela t&#225; certa. Eu vou ligar. &#192;s 3h17, b&#234;bado de solid&#227;o e nostalgia, vou discar o </p><p>n&#250;mero que ainda sei de cor. E vou ouvir aquele sil&#234;ncio antes da grava&#231;&#227;o... aquele suspiro de </p><p>linha viva... e vou desligar. Porque algumas portas a gente n&#227;o tem direito de bater de novo. </p><p>(Pega a garrafa e levanta num brinde fantasmal) </p><p>Pra ela. Que foi embora com a x&#237;cara quebrada e deixou a marca no ch&#227;o. Pra mim. Que fico </p><p>aqui, encenando um mon&#243;logo pra um apartamento vazio. E pra todos n&#243;s, os que seguram as </p><p>chaves depois que a casa j&#225; foi embora. </p><p>(O holofote se apaga. Fica o som da garrafa rolando no ch&#227;o.)</p><div><hr></div><p> A X&#205;CARA RACHADA </p><p>O palco est&#225; quase escuro. Uma &#250;nica cadeira no centro. ELA entra, veste um casaco simples e </p><p>segura uma x&#237;cara rachada. Senta-se com postura reta, mas os olhos perdem-se no vazio. Fala </p><p>para si mesma, numa voz clara e dolorosamente l&#250;cida. </p><p>ELA </p><p>(Segura a x&#237;cara com ambas as m&#227;os, como quem aquece uma coisa j&#225; fria) </p><p>Eu ainda te amo. </p><p>D&#243;i admitir, mas &#233; a verdade mais pura que carrego. </p><p>N&#227;o &#233; um amor que grita, &#233; um amor que sussurra, </p><p>que se esconde nas entrelinhas das minhas decis&#245;es. </p><p>Mas ele est&#225; aqui. </p><p>Nesta x&#237;cara quebrada que consertamos tr&#234;s vezes. </p><p>Nesta chave que devolvo, mas cujo peso ainda conhe&#231;o pelo tato. </p><p>(Ergue os olhos, como se encarasse algu&#233;m na plateia) </p><p>Voc&#234; acha que eu n&#227;o sinto? </p><p>Que n&#227;o lembro do seu riso quando o caf&#233; transbordava? </p><p>Do seu jeito de me abra&#231;ar por tr&#225;s enquanto eu fritava ovos? </p><p>Do sil&#234;ncio que a gente compartilhava sem precisar preencher? </p><p>Sinto! </p><p>Sinto tanto que &#224;s vezes a saudade aperta meu peito como uma m&#227;o fria. </p><p>(Coloca a x&#237;cara no ch&#227;o, com cuidado excessivo) </p><p>Mas amor n&#227;o &#233; suficiente. </p><p>N&#227;o quando a gente se machuca mais do que se ajuda. </p><p>N&#227;o quando seus monstros e os meus come&#231;am a brigar entre si. </p><p>N&#227;o quando a gente vira aquela planta que a gente rega s&#243; por h&#225;bito, j&#225; sem lembrar que um </p><p>dia ela deu flores. </p><p>(Levanta, caminha at&#233; a beira do palco) </p><p>Eu poderia ficar. </p><p>Poderia ignorar as rachaduras, fingir que n&#227;o vejo o cansa&#231;o nos seus olhos, o cansa&#231;o nos </p><p>meus. </p><p>Poderia enterrar minha lucidez no comodismo e chamar isso de "felicidade". </p><p>(MeXE a cabe&#231;a, com uma dor quieta) </p><p>Mas n&#227;o. </p><p>N&#227;o seria justo com voc&#234;.. </p><p>que merece algu&#233;m que n&#227;o precise fingir. </p><p>N&#227;o seria justo comigo... </p><p>que merece algu&#233;m que eu n&#227;o precise consertar. </p><p>(Volta para a cadeira, mas n&#227;o se senta) </p><p>Ent&#227;o eu vou embora. </p><p>N&#227;o porque deixei de amar, mas porque amo demais pra deixar a gente se afogar numa po&#231;a </p><p>rasa de lembran&#231;as. </p><p>Levo a x&#237;cara. </p><p>N&#227;o como trof&#233;u, mas como lembran&#231;a ,de que at&#233; coisas quebradas podem ser belas </p><p>enquanto durarem. </p><p>E voc&#234;? </p><p>Voc&#234; fica. </p><p>Com suas chaves, suas portas entreabertas, suas hist&#243;rias n&#227;o contadas. </p><p>Um dia... </p><p>quando a poeira baixar e saudade n&#227;o for mais um fantasma, talvez a gente se encontre </p><p>noutra vida, noutro tempo, num caf&#233; que n&#227;o precise ser consertado. </p><p>At&#233; l&#225;, eu vou amar voc&#234; na dist&#226;ncia, com a quietude de quem sabe que alguns finais s&#227;o </p><p>necess&#225;rios. </p><p>Ela sai de cena, levando a x&#237;cara. A luz diminui at&#233; restar apenas o assento vazio.</p>]]></content:encoded></item><item><title><![CDATA[tem dia que é melhor ser contra casamentos]]></title><description><![CDATA[notas e noias #11]]></description><link>https://notasenoias.substack.com/p/tem-dia-que-e-melhor-ser-contra-casamentos</link><guid isPermaLink="false">https://notasenoias.substack.com/p/tem-dia-que-e-melhor-ser-contra-casamentos</guid><dc:creator><![CDATA[Pedro Bruno]]></dc:creator><pubDate>Fri, 19 Sep 2025 01:04:29 GMT</pubDate><enclosure url="https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kHES!,w_256,c_limit,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F4f7c9fc8-4ab0-4315-95bc-a8892103e435_1024x1024.png" length="0" type="image/jpeg"/><content:encoded><![CDATA[<h3>O Casamento (Ou Como a Falta de Portas Arruinou Tudo)</h3><p>A Igreja de S&#227;o Judas Tadeu nunca havia visto tanta pompa. Flores brancas e douradas enfeitavam cada coluna, velas tremulavam suavemente no vento que entrava pelas janelas abertas, e os convidados, todos de trajes impec&#225;veis, murmuravam elogios sobre o "casamento do ano". Eduardo, o noivo, um homem de trinta e poucos anos com um terno que custou uns tr&#234;s sal&#225;rios m&#237;nimos, suava frio diante do altar. N&#227;o era o nervosismo do matrim&#244;nio, era o fato de que, h&#225; exatos vinte minutos, ele ouvira um rumor.</p><p>Um rumor terr&#237;vel.</p><p>Enquanto ajustava a gravata no banheiro, dois homens comentavam, rindo, que Mariana, sua noiva, tinha um "gosto peculiar por gar&#231;ons". Eduardo tentara ignorar, atribuindo tudo &#224; m&#225; l&#237;ngua de algum invejoso. Mas ent&#227;o, ao sair, encontra o fot&#243;grafo, um sujeito de barba por fazer e ar de quem j&#225; viu de tudo, apressadamente guardando a c&#226;mera com uma express&#227;o de quem acabara de presenciar um crime.</p><p>&#8212; Tudo bem? &#8212; perguntara Eduardo.</p><p>&#8212; &#211;timo, &#243;timo &#8212; o fot&#243;grafo respondeu, evitando contato visual. &#8212; S&#243;&#8230; talvez fosse bom fechar a porta da sacristia.</p><p>Eduardo n&#227;o investigou. Preferiu acreditar na sua pr&#243;pria vers&#227;o, aquela que tudo n&#227;o passava de um mal-entendido.</p><p>At&#233; o momento em que, durante a cerim&#244;nia, uma das damas de honra, uma loira alta chamada B&#225;rbara, inclinou-se para tr&#225;s e sussurrou algo ao gar&#231;om que servia &#225;gua. O gar&#231;om, um rapaz de sobrancelha furada e sorriso desavergonhado, riu e respondeu em voz alta o suficiente para metade da primeira fileira ouvir:</p><p>&#8212; &#201;, mas que pena que a noiva do coitado &#233; uma baita puta!!!!</p><p>O sil&#234;ncio que se seguiu foi t&#227;o denso que se poderia ouvir o suor escorrendo pela nuca do padre.</p><p>Foi ent&#227;o que Raul, o padrinho e &#250;nico adulto funcional do grupo, ergueu-se como um profeta b&#234;bado e bradou:</p><p>&#8212; SER&#193; QUE NINGU&#201;M AQUI SABE FECHAR A PORRA DA PORTA?!</p><p>A igreja inteira pareceu parar. A av&#243; de Eduardo desmaiou. O coroinha come&#231;ou a rir sem controle. Mariana, ainda no altar, n&#227;o perdeu a pose, apenas arregalou os olhos, como se calculasse mentalmente quantos convidados precisariam ser eliminados para abafar o esc&#226;ndalo.</p><p>Eduardo, por sua vez, teve um momento de clareza existencial. Ele olhou para sua noiva, depois para o gar&#231;om, depois para o fot&#243;grafo (que agora cobria o rosto com as m&#227;os), e ent&#227;o, num tom quase cient&#237;fico, declarou:</p><p>&#8212; Tecnicamente&#8230; nosso casamento est&#225; salvo.</p><p>&#8212; Como assim, tecnicamente?! &#8212; gritou a m&#227;e da noiva.</p><p>&#8212; Ora &#8212; explicou Raul, j&#225; servindo champanhe para si mesmo &#8212; se ningu&#233;m tivesse visto, n&#227;o teria acontecido. O problema n&#227;o &#233; a trai&#231;&#227;o, &#233; a falta de discri&#231;&#227;o.</p><p>Um murm&#250;rio de concord&#226;ncia percorreu a plateia. Afinal, era muito mais f&#225;cil culpar uma porta aberta do que enfrentar o fato de que Mariana tinha um hist&#243;rico de "acidentes" rom&#226;nticos, incluindo um caso com o professor de ioga do noivo, outro com o dono da loja de alian&#231;as, e um epis&#243;dio nebuloso envolvendo um Uber Black.</p><p>&#8212; &#192; racionalidade! &#8212; brindou Eduardo, erguendo a ta&#231;a que um gar&#231;om (n&#227;o aquele) lhe entregara.</p><p>E assim, entre risos nervosos, olhares assassinados e um gar&#231;om fugindo pela janela do banheiro, a cerim&#244;nia prosseguiu. O padre, resignado, acelerou o "sim" como se estivesse lendo os termos e condi&#231;&#245;es de um aplicativo.</p><p>Na recep&#231;&#227;o, o bolo foi cortado, as fotos foram tiradas (com o fot&#243;grafo evitando cuidadosamente a sacristia), e Mariana dan&#231;ou com o pai como se nada tivesse acontecido. Eduardo, por outro lado, passou a noite em profundas reflex&#245;es filos&#243;ficas, enquanto Raul, j&#225; completamente b&#234;bado, discursava para um grupo de tias:</p><p>&#8212; O casamento &#233; como um pr&#233;dio em chamas, senhoras. Ou voc&#234; fecha as portas e controla o inc&#234;ndio, ou todo mundo v&#234; a merda acontecer.</p><p>E, naquele momento, sob o brilho das luzes dan&#231;antes e o som de "Cedo ou Tarde" tocando na banda ao vivo, Eduardo percebeu que talvez, apenas talvez, o verdadeiro amor da sua vida fosse Raul.</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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Um texto escrito em meio a escurid&#227;o e uma curadoria de filmes independentes.</p><p>Pois &#233;, ontem foi uma daquelas noites que s&#243; terminam quando o sol aparece com cara de juiz. Tava eu enfiado no p&#233; do sof&#225;, no ch&#227;o mesmo, garrafa de negroni se esvaziando mais que o meu futuro espiritual. Cumpria um sagrado dever: selecionar 60 curtas pra mostra de cinema do coletivo. Entre um trago e um suspiro, eis que surge ele, um filme que n&#227;o era porn&#244;, mas tamb&#233;m n&#227;o era missa. Vou chamar de "poema corporal". Era um neg&#243;cio h&#237;brido: metade coito, metade haicai. Luzes sujas, pele em close que parecia verso de Drummond, movimentos de c&#226;mera que simulavam o suspiro de quem perdeu o pulm&#227;o. "Arte", sussurrou o idiota cult dentro de mim.</p><p>Parei meu Negroni no ar. Aquilo era tes&#227;o? Era arte? Era s&#243; um corpo suado tentando preencher o mesmo vazio que eu carrego nas costas desde que ela foi embora?</p><p>Confesso: senti coisa. N&#227;o aquela coisa &#243;bvia, de sangue subindo (ou descendo) pra lugares convencionais. N&#227;o. Foi uma agonia fina, de quem olha pra uma coxinha na padaria mas sabe que t&#225; sem um puto no bolso. O filme mostrava tudo que a minha cama n&#227;o tem: pernas entrela&#231;adas, unhas arranhando costas, gemidos que n&#227;o eram de dor de cotovelo. E eu ali, ot&#225;rio rodeado pela solid&#227;o, com meu copo sujo e meus quase 30 anos.</p><p>O pior foi a poesia. O diretor meteu um close na nuca dela enquanto ele se contorcia, e parecia verso de Wander Wildner. Jogo de luz refletindo naquelas express&#245;es, parecia pintura renascentista (renascentista? N&#227;o sei, sempre confundo). At&#233; a respira&#231;&#227;o ofegante tinha ritmo, meu irm&#227;o. Ritmo! Enquanto isso, meu &#250;ltimo orgasmo foi solit&#225;rio e r&#225;pido, assistido pelo fantasma da ex na parede.</p><p>Fiquei com raiva. Raiva daquela mo&#231;a linda. Raiva do diretor genial. Raiva de mim mesmo por ter virado um espectador da pr&#243;pria car&#234;ncia. Parece piada, o cara que organiza mostras de amor alheio mas dorme abra&#231;ado com travesseiro que nem cheiro de xampu guarda mais.</p><p>A&#237; veio a pergunta que n&#227;o quer calar (e que o quinto Negroni gritou):</p><p>&#8212; Que direito tem um cora&#231;&#227;o abandonado de sentir tes&#227;o por putaria alheia?</p><p>N&#227;o respondi. Quis acender um cigarro. A fuma&#231;a com desenhos tristes no ar. Lembrei que eu detestava quando ela fumava e atacava minha rinite. Saudade at&#233; disso, imagina.</p><p>Mas ao acordar, sou invadido com uma trilha sonora triste e um pensamento pulsante:</p><p>N&#227;o h&#225; vergonha nesse tes&#227;o vazio.</p><p>&#201; s&#243; mais uma forma de fome. Voc&#234; v&#234; o banquete, saliva, sabe que n&#227;o pode comer, mas reconhece o sabor pela mem&#243;ria das papilas (papilas?). E segue. Com a diferen&#231;a que, no meu caso, a fome vira arte. Ou bebedeira. Ou cr&#244;nica escrita com os dedos tremendo.</p><p>Ah! Ao acordar, com a boca seca, zero mensagens. Zero!</p><div class="subscription-widget-wrap-editor" data-attrs="{&quot;url&quot;:&quot;https://notasenoias.substack.com/subscribe?&quot;,&quot;text&quot;:&quot;Subscrever&quot;,&quot;language&quot;:&quot;pt&quot;}" data-component-name="SubscribeWidgetToDOM"><div class="subscription-widget show-subscribe"><div class="preamble"><p class="cta-caption">notas e noias &#233; uma publica&#231;&#227;o apoiada pelos leitores. 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